Iain Murray
Agostinho, filho de um oficial romano, nasceu em Tagaste, no norte da África, em 354. Dotado de brilhantes talentos, profundamente motivado pela vanglória e pelo desejo de ser louvado, aos 19 anos ele estudava e ensinava retórica na antiga cidade de Cartago. Com sua mente voltada à busca da sabedoria humana e seu coração cativo aos prazeres do pecado, permaneceu ali desperdiçando o melhor de sua vida. .Ai, ai!., escreveu mais tarde, .aqueles passos me conduziram às profundezas do inferno! Labutando e desgastando-me por falta da verdade! . Os vários sistemas filosóficos de pensamento que ocupavam a atenção de Agostinho apenas o conduziam mais profundamente ao labirinto do erro. Com 31 anos de idade, o desespero mental e a angústia de coração levaram-no a adotar as dúvidas dos acadêmicos, os quais acreditavam que nada era certo. .Eu estava sobrecarregado com as mais inquietantes preocupações, receando que morreria sem descobrir a verdade.. Ora, nesse caminho, a consciência de pecado começou a atormentá-lo. Tomado por medo e vergonha, profundamente consciente de que o pecado havia corrompido sua mente e escravizado sua vontade, Agostinho passou a odiar a si mesmo.
Ele não percebia que um vaso de misericórdia estava sendo formado; que um servo de Cristo estava sendo criado e que ele seria, por meio da graça divina, um dos mais poderosos defensores da verdade outorgada por Deus à sua igreja. Aconteceu que, no ano de 386, em um jardim de Milão, uma voz soou em seus ouvidos, como que vinda do céu, ordenando-lhe que lesse a Bíblia. .Tu me chamaste, gritaste e rompeste minha surdez.. Abrindo a Palavra de Deus em Romanos 13.13-14, Agostinho disse: .Uma luz de serenidade infundiu-se em meu coração, e as densas trevas que flutuavam em meus olhos dissolveram-se em um instante. Tua voz poderosa disse: .Haja luz, e houve luz... Desse momento em diante, Agostinho, profundamente humilhado, tinha apenas um ardente desejo: amar e servir seu Salvador. .Não tenho qualquer prazer, exceto aquele que resulta de falar, ouvir, escrever, pregar e envolver me constantemente na meditação do Senhor e de sua glória.. Era o momento designado por Deus para levantar seu servo.
Era uma época carregada de motivos para causar alarme e incitar temor. A igreja de Cristo estava sendo ameaçada por erros internos, enquanto externamente a queda do Império Romano trazia confusão, invasão de bárbaros, séculos de desordem e trevas sobre a Europa. Nos anos que seguiram à conversão de Agostinho, nós o vemos sendo transformado em um instrumento para o propósito de Deus. Dia a dia, ano após ano, ele foi completamente absorvido pela Palavra de Deus. Com freqüência, ele a estudava no meio da madrugada, aprendendo-a sobre seus joelhos, alimentando-se incansavelmente de seu conteúdo. Verdades fundamentais estavam sendo gravadas em sua alma, verdades da Palavra de Deus que deveriam brilhar durante as eras futuras da igreja.
No início do ano de 392, as orações do idoso Valério, bispo de Hipona, em favor de outro pastor para seu rebanho, foram respondidas com a vinda de Agostinho para assumir o seu lugar. Ali, Agostinho foi ordenado presbítero, aos 39 anos de idade e, posteriormente, torno use bispo. Infelizmente, para a igreja, estava desaparecendo a igualdade estabelecida pelos apóstolos entre presbíteros e bispos. Embora o ofício de bispo em Roma começasse a associar-se a uma arrogância de senhorio e à presunção sacerdotal, isto não acontecia em Hipona, no norte da África. Agostinho, como bispo de Hipona, tinha muitas coisas em comum com seus irmãos crentes e jamais se colocou em posição de destaque. Ao morrer, não deixou qualquer herança; em vida, não apenas repartiu o que tinha com todos, mas chegou a derreter vasos de prata da igreja por amor aos pobres. Do púlpito, ele implorava de forma surpreendente aos homens. Sua fonte de autoridade era a Palavra de Deus, a qual ele tratava com a mais profunda reverência. .Oh! maravilhosa profundidade da tua Palavra!., ele exclamou, em certa ocasião, enquanto pregava, .cujas verdades, nós, pequeninos, podemos ver com facilidade; apesar disso, há uma maravilhosa profundidade, ó meu Deus, uma maravilhosa profundidade! . Ao final de sua vida, este ministro apostólico declarou: .Ainda que tenhamos capacidade e diligência para estudar durante a vida inteira, desde a infância à velhice, somente as Sagradas Escrituras, elas possuem tanta consistência e abundância de verdades, que todos os dias poderemos aprender algo que não sabíamos.. Agostinho pregava do profundo de seu coração, e seu intenso amor pelas almas fê-lo sentir um grande desejo de pregar a seus ouvintes para levá-los a Cristo. Ele havia aprendido, em sua vida diária, a olhar tão intensamente para Cristo, que toda sua pregação a respeito de outros assuntos reduziu-se a quase nada.
.Ó amor indescritível., ele costumava clamar, .que levou Deus, em carne, a morrer pelo homem; se o homem não tivesse sido comprado por tão elevado preço, inevitavelmente sofreria a eterna condenação.. Agostinho se absteve da sabedoria de palavras e pregou uma mensagem veemente, direta, sem rodeios, freqüentemente trazendo seus ouvintes às lágrimas.
Quais eram as doutrinas ensinadas por esse homem piedoso?
Deus o levantou para falar contra quais erros? Ninguém deve afirmar que a antigüidade dos escritos de Agostinho prejudicam a utilidade deles. O mundo, disse ele, com sua glória e grandeza, logo perecer á, mas a verdade de Deus permanece, eterna e imutável. Da mesma forma, embora o erro apareça em incontáveis formas, a base sobre a qual ele está alicerçado é a mesma em todas as épocas. De fato, é verdade que as doutrinas que Agostinho expôs fundamentado nas Escrituras possuem importância tão grande, que ignorá-las nos torna incapazes de julgar as questões vitais de nossos dias. Portanto, o erro ao qual ele se opôs permanece até hoje com efeitos devastadores na igreja.
A heresia jamais surge com a aparência de heresia. Na época de Agostinho, ela surgiu através de um homem chamado Pelágio, aparentemente sem culpa, modesto, que praticava a mortificação e com zelo exortava os outros a seguirem o exemplo de Cristo. O ensinamento desse homem era tão sutil e ambíguo, que passou despercebido perante um concílio de bispos da Palestina. Foi deixada para Agostinho a responsabilidade de expor os alicerces do pelagianismo. Através de muitos anos de provações e humilhações, Deus o preparou para essa tarefa. A raiz do ensino pelagiano estava errada em sua visão da natureza do homem. Pelágio dizia que o homem não estava numa condição de pecado original e possuía o livre-arbítrio, assim como Adão antes da queda. O pecado não é herdado por natureza e sim pelo exemplo. Portanto, na salvação, a graça de Deus não é um poder interior que renova a natureza corrompida e restaura a vontade pecaminosa do homem, trazendo-a à liberdade, mas, ao invés disso, a graça de Deus é algo externo, que nós podemos receber, se assim decidirmos. Pelágio afirmava que a graça de Deus era oferecida a todos igualmente e, portanto, era a escolha do homem que determinava se a graça seria recebida ou não. Em resumo, o pelagianismo é uma crença de que a salvação é o resultado da cooperação entre Deus e o pecador.
O que levou Agostinho a contender tão firmemente contra afirmações como essas? Ele não era o tipo de homem que entraria em controvérsia por causa de assuntos não-essenciais, pois o espírito de controvérsia era algo bastante diferente de seu terno amor para com todos. Sua única preocupação no mundo era a glória de Deus através da sua igreja; mas Agostinho sabia que a segurança da igreja reside na preservação da verdade, e estava disposto a denunciar o pelagianismo como um erro pernicioso. .O grande pecado do pelagianismo ., declarou Agostinho, .é fazer o homem esquecer-se por que ele é um crente.. Defendendo as Escrituras, Agostinho afirmou que a conversão do pecador resulta apenas da eleição gratuita da parte de Deus e que a razão pela qual Ele chama alguns e rejeita outros reside inteiramente em sua vontade inescrutável. Em sua obra .Concerning the Predestination of the Saints. (A Predestinação dos Santos), Agostinho escreveu o seguinte: .Para que ninguém diga, minha fé ou minha justiça me distingue dos demais, o grande apóstolo dos gentios pergunta: .O que tendes que não recebestes? . A fé, portanto, desde seu princípio até à sua perfeição, é um dom de Deus. Entretanto, o motivo da fé não ser dada a todos, não deve preocupar o crente, pois este sabe que todos, por causa do pecado de um só homem, estão debaixo da mais justa condenação. A razão por que Deus livra uma pessoa de sua condenação e não a outra, está em seus próprios e inescrutáveis juízos. E, se perguntamos por que o receptor da fé é considerado digno por Deus para receber tal dom, acharemos aqueles que dirão: .É por escolha humana.. Mas nós afirmamos que é pela graça; ou seja, pela divina predestinação.. Seguindo as Escrituras, Agostinho demonstrou que a eleição é a causa primária de tudo e mostrou como é absurdo afirmar que a fé prevista por Deus é a causa da eleição. .Paulo não declara que os filhos de Deus foram escolhidos porque Ele previu que creriam, mas para que pudessem crer. Deus não nos escolheu porque nós cremos, mas para que crêssemos; para não parecer que fomos nós quem primeiro O escolhemos. Paulo assevera com clareza que, desde o princípio da humanidade, ser santo é fruto da eleição. Aqueles que colocam a eleição depois da fé agem, portanto, de forma bastante absurda. Quando Paulo apresenta o beneplácito que Deus teve em Si mesmo como a causa da eleição, ele exclui todas as outras possíveis causas..
Os adversários de Agostinho reivindicaram que a autoridade da igreja estava contra suas doutrinas, e ele replicou que, antes da heresia de Pelágio, os pais da igreja primitiva não manifestavam suas opiniões profundas sobre a predestinação, e sua resposta era correta. E acrescentou: .Qual a necessidade de examinar as obras daqueles escritores que, antes de surgir a heresia de Pelágio, não sentiram qualquer necessidade de se expressarem sobre essa questão? Se esta necessidade tivesse surgido e se houvessem sido compelidos a responder aos inimigos da predestinação, sem dúvida, eles o teriam feito. O que me compeliu a defender as passagens das Escrituras onde a predestinação é claramente ensinada? O que me estimulou foi o aparecimento dos pelagianos dizendo que recebemos a graça de Deus quando nos tornarmos dignos dela!.
Não podemos falar agora sobre a maneira como a controvérsia pelagiana foi resolvida, sobre o modo como o Concílio de Éfeso condenou as posições de Pelágio, em 431, sobre como o piedoso bispo de Hipona, cheio de amor por Cristo, labutou até ao seu último suspiro e como ele morreu três meses antes da guarda romana em Hipona ser vencida pela invasão bárbara. E não há espaço para discorrer a respeito das lições que podemos aprender da vida desse homem, a não ser esta que salientamos: a vida de Agostinho desaprova, de uma vez por todas, a objeção de que a fé na predestinação eterna da parte de Deus é inconsistente com o zelo na pregação e no evangelismo. Agostinho escreveu: .Eles dizem que a doutrina da predestinação é inimiga da pregação e que não traz qualquer benefício. É como se ela fosse inimiga da pregação do apóstolo. O excelente apóstolo aos gentios freqüentemente exaltou a predestinação e, apesar disso, jamais deixou de pregar a Palavra de Deus. Pois, assim como a piedade deve ser pregada, para que Deus seja verdadeiramente adorado, assim também deve acontecer à predestinação. Aquele que tem ouvidos para ouvir glorie-se na graça de Deus, no próprio Deus, e não em si mesmo..
O mundo de Agostinho passou, mas os erros que temos de combater não. Eles foram poderosamente reavivados no arminianismo, no século XVII; e, em nossos dias, os mesmos erros (este grande pecado, como o chamou Agostinho), têm se espalhado pela igreja visível. Deus pronunciou um solene anátema contra aqueles que buscam desfazer a sua obra, ao edificarem sobre aquilo que Ele destruiu (Js 6. 26). Ao encerrar este artigo, consideremos atentamente as palavras de Richard Sibbes, teólogo de Cambridge:
.A heresia de Pelágio foi condenada ao inferno pelos antigos concílios. Os vários concílios realizados na África e diversos sínodos, nos quais o próprio Agostinho esteve presente, condenaram a heresia de Pelágio. Hoje não existem homens que querem ressuscitar estas heresias? Nada podemos esperar, exceto a maldição que prevalece quando homens reavivam heresias que Deus condenou. Elas são opiniões amaldiçoadas pela igreja de Deus, que até agora tem sido guiada pelo Espírito Santo. Tais opiniões, penso eu, que falam levianamente sobre a graça de Deus e promovem o poder do livre-arbítrio, fazem deste um ídolo; por isso, estão debaixo de condenação e, por natureza, são inimigas da graça de Deus..
domingo, 28 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
A Incapacidade da Vontade Humana

Arthur W. Pink
Está na esfera da vontade humana a capacidade de aceitar ou rejeitar o Senhor Jesus como Salvador? Visto que o evangelho é anunciado ao pecador e que o Espírito Santo o convence de sua condição de perdido, está no poder de sua própria vontade resistir ou render-se a Deus? As respostas destas perguntas definem nossa opinião a respeito da depravação do homem.
Todos os crentes concordam com o fato de que o homem é uma criatura caída. Mas, freqüentemente, é muito difícil determinar o que eles querem dizer ao utilizarem o vocábulo “caído”. A impressão geral parece ser esta: o homem não está mais na mesma condição em que saiu das mãos do Criador; ele está sujeito a enfermidades e herdou tendências perversas; mas, se empregar ao máximo as suas habilidades, o homem será, de alguma maneira, capaz de desfrutar o máximo da felicidade.
Oh! quão distante isso está da terrível verdade! Enfermidades, doenças e a morte física são apenas ninharias em comparação com os resultados morais e espirituais da Queda! Somente quando examinamos as Escrituras Sagradas, podemos obter alguma idéia correta a respeito da extensão dessa terrível calamidade. Quando dizemos que o homem é totalmente depravado, estamos afirmando que a entrada do pecado na constituição humana afetou todas as partes e todas as faculdades do homem. A depravação total significa que o homem, em seu corpo, alma e espírito, é escravo do pecado e servo de Satanás — está andando de acordo com “o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2).
Não precisamos argumentar em favor desta verdade; é um fato comum da experiência dos homens. O homem é incapaz de atingir suas próprias aspirações e concretizar seus próprios ideais. Ele não pode fazer as coisas que gostaria de fazer. Existe uma incapacidade moral que o paralisa. Esta é uma prova de que ele não é um ser livre e que, ao contrário disso, é um escravo do pecado e de Satanás. “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos” (Jo 8.44).
O pecado é muito mais do que uma atitude ou uma série de atitudes; é a constituição do próprio homem. O pecado cega o entendimento, corrompe o coração e separa o homem de Deus. E a vontade do homem não escapou dos efeitos do pecado. A vontade está sob o domínio do pecado e de Satanás. Portanto, a vontade não é livre. Em resumo, as afeições amam e a vontade escolhe de acordo com o estado do coração; e, visto que este é enganoso e desesperadamente corrupto, mais do que todas as coisas, “não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (Rm 3.11).
sábado, 20 de março de 2010
Por que o justo sofre?

R. C. Sproul
No âmago da mensagem do livro de Jó, acha-se a sabedoria que responde à questão a respeito de como Deus se envolve no problema do sofrimento humano. Em cada geração, surgem protestos, dizendo: “Se Deus é bom, não deveria haver dor, sofrimento e morte neste mundo”.
Com este protesto contra as coisas ruins que acontecem a pessoas boas, tem havido tentativas de criar um meio de calcular o sofrimento, pelo qual se pressupõe que o limite da aflição de uma pessoa é diretamente proporcional ao grau de culpa que ela possui ou pecados que comete.
No livro de Jó, o personagem é descrito como um homem justo; de fato, o mais justo que havia em toda a terra. Mas Satanás afirma que esse homem é justo somente porque recebe bênçãos de Deus. Deus o cercou e o abençoou acima de todos os mortais; e, como resultado disso, Satanás acusa Jó de servir a Deus somente por causa da generosa compensação que recebe de seu Criador.
Da parte do Maligno, surge o desafio para que Deus remova a proteção e veja que Jó começará a amaldiçoá-Lo. À medida que a história se desenrola, os sofrimentos de Jó aumentam rapidamente, de mal a pior. Seus sofrimentos se tornam tão intensos, que ele se vê assentado em cinzas, amaldiçoando o dia de seu nascimento e clamando com dores incessantes. O seu sofrimento é tão profundo, que até sua esposa o aconselha a amaldiçoar a Deus, para que morresse e ficasse livre de sua agonia. Na continuação da história, desdobram-se os conselhos que os amigos de Jó lhe deram — Elifaz, Bildade e Zofar. O testemunho deles mostra quão vazia e superficial era a sua lealdade a Jó e quão presunçosos eles eram em presumir que o sofrimento indescritível de Jó tinha de fundamentar-se numa degeneração radical do seu caráter.
Eliú fez discursos que traziam consigo alguns elementos da sabedoria bíblica. Todavia, a sabedoria final encontrada neste livro não provém dos amigos de Jó, nem de Eliú, e sim do próprio Deus. Quando Jó exige uma resposta de Deus, Este lhe responde com esta repreensão: “Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber” (Jó 38.2, 3). O que resulta desta repreensão é o mais vigoroso questionamento já feito pelo Criador a um ser humano. A princípio, pode parecer que Deus estava pressionando Jó, visto que Ele diz: “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?” (v. 4) Deus levanta uma pergunta após outra e, com suas perguntas, reitera a inferioridade e subordinação de Jó. Deus continua a fazer perguntas a respeito da habilidade de Jó em fazer coisas que lhe eram impossíveis, mas que Ele podia fazer. Por último, Jó confessa que isso era maravilhoso demais. Ele disse: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (42.5-6).
Neste drama, é digno observar que Deus não fala diretamente a Jó. Ele não diz: “Jó, a razão por que você está sofrendo é esta ou aquela”. Pelo contrário, no mistério deste profundo sofrimento, Deus responde a Jó revelando-se a Si mesmo. Esta é a sabedoria que responde à questão do sofrimento — a resposta não é por que tenho de sofrer deste modo particular, nesta época e circunstância específicas, e sim em que repousa a minha esperança em meio ao sofrimento. A resposta a essa questão provém claramente da sabedoria do livro de Jó: o temor do Senhor, o respeito e a reverência diante de Deus, é o princípio da sabedoria. Quando estamos desnorteados e confusos por coisas que não entendemos neste mundo, não devemos buscar respostas específicas para questões específicas, e sim buscar conhecer a Deus em sua santidade, em sua justiça e em sua misericórdia. Esta é a sabedoria de Deus que se acha no livro de Jó.
terça-feira, 16 de março de 2010
Criacionismo
John MacArthur
John MacArhtur, autor de mais de 150 livros e conferencista internacional, é pastor da Grace Comunity Church, em Sum Valley, Califórnia, desde 1969; é presidente do Master’s College and Seminary e do ministério “Grace to You”; John e sua esposa Patrícia têm quatro filhos e quatorze netos.
Reconhecendo que a Bíblia é a própria Palavra de Deus dirigida ao homem e entendendo a prioridade de conhecer suas verdades e obedece-las, devemos estar comprometidos em estudar com diligência o ensino das Escrituras.
Quando o universo e tudo que ele contém foram criados? O que aconteceu e quanto tempo levou? Deus, o único que existia antes mesmo de o mundo ter seu início, apresenta as respostas para essas perguntas em sua revelação ao homem — a Bíblia.
O ponto de partida
Existe uma história fictícia a respeito de alguns homens que procuravam resposta para esta pergunta: de onde veio a Terra? Depois de reunirem suas informações e introduzirem-nas em um sofisticado computador, eles apertaram, com grande expectativa, a tecla de respostas. As luzes brilharam, as campainhas soaram, e o computador lhes deu a seguinte mensagem impressa: “Vejam Gênesis 1.1”. Essa história fictícia ilustra um fato crucial: Deus nos outorgou uma revelação escrita que exige averiguação primária.
Testemunho unânime
Em toda a Bíblia existem afirmações específicas testemunhando que Deus criou o mundo: “Só tu és Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora” (Neemias 9.6); “Assim diz o Senhor, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra” (Isaías 44.24); “Ah! Senhor Deus, eis que fizeste os céus e a terra com o teu grande poder e com o teu braço estendido; coisa alguma te é demasiadamente maravilhosa” (Jeremias 32.17). O apóstolo Paulo disse ao povo de Listra: “...e vos anunciamos o evangelho para que destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles” (Atos 14.15). “Todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas” (Apocalipse 4.11). Uma pesquisa mais abrangente inclui 1 Crônicas 16.25-26, Jó 38-41, Salmos 33.6, Salmos 148.1-5, Provérbios 3.19, Amós 4.13, Jonas 1.9, Zacarias 12.1, Romanos 9.20, Apocalipse 10.6 e 14.7.
As passagens da Bíblia nos mostram que uma Pessoa, e não um processo, trouxe o mundo à existência; e esta é a conclusão irrefutável: Deus é a causa primária da existência de todas as coisas.
Afirmações Diretas
Para muitos crentes sinceros, a pergunta não é: “Quem criou o mundo?, e sim: “Como Deus o criou?”
A Bíblia não se mantém em silêncio a respeito deste assunto, pois ela apresenta afirmações definitivas sobre a natureza específica da Criação, referindo-se tanto à quantidade de tempo como à fonte do material utilizado.
Primeiramente, a Bíblia nos diz quanto tempo foi gasto na criação do mundo. Quando Deus (através de Moisés) desejou ilustrar como o Quarto Mandamento deveria ser obedecido, Ele mencionou a Criação como um modelo — “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Êxodo 20.8-11).
O homem deve trabalhar seis dias (v. 9), porque em seis dias o Senhor criou os céus, a terra, o mar e tudo o que neles há (v. 11). Visto que os dias de trabalho são medidos em segmentos de 24 horas, o período de tempo da Criação (que serviu como protótipo) deve ter a mesma medida. Esta mesma lógica se aplica ao dia de descanso (vv. 10-11). Se os dias não possuem a mesma medida, em ambas as passagens, a ilustração perde seu significado.
Em segundo, o escritor da Epístola aos Hebreus nos fala sobre os materiais que Deus utilizou na Criação. “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hebreus 11.3). Não existia qualquer matéria eterna; tampouco Deus plantou as sementes que se desenvolveriam e se tornariam algo mais complexo do que elas mesmas. A Bíblia deixa claro que a criação do mundo foi ex nihilo (do nada). Isto significa que o mundo visível para nós hoje não é o resultado de imensas etapas de maturação. Pelo contrário, o mundo visível chegou à existência como resultado do ato criativo da parte de Deus, sem a utilização de materiais já existentes. Visto que Deus é a causa primária da criação especial, devemos imaginar que a sua criação tenha a sua assinatura.
A natureza de Deus
A eterna perfeição de Deus é admitida em toda a Bíblia. A admirável majestade da criação, por exemplo, reflete o poder, a glória e o domínio de Deus. “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmos 19.1).
Nenhum processo de evolução ou maturação nos mostraria, desde o princípio, a infinidade e o poder de Deus. No entanto, desde o principio, a criatura tem ficado sem desculpa por sua ignorância a respeito de Deus, pois Ele é revelado claramente na natureza de sua criação.
É possível conceber um processo evolucionário sem qualquer atividade divina. Essa é a razão por que muitos evolucionistas são ateístas e por que Deus se torna um incômodo no pensamento deles. Entretanto, não podemos ter uma criação repentina sem a atividade de Deus. Portanto, somente através da criação repentina o poder de Deus se mostraria inconfundível desde o início. Essa foi a razão por que o apóstolo Paulo disse: “Os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (Romanos 1.20).
Suponhamos, por um momento, que o mundo e seus habitantes vieram à existência por meio de um processo. O mais complexo se desenvolveria (evoluiria) a partir do mais simples. A maior parte dos evolucionistas concorda que a raça humana permanece como a epítome do processo. Se tudo isso é verdade, aquilo que é elementar a respeito da natureza do homem, também deve ser elementar no que diz respeito ao organismo original do qual o homem evoluiu.
Esta argumentação, embora atraente, é falsa por causa de pelo menos um fato bíblico elementar. O homem foi criado à imagem de Deus. Portanto, os homens não podem ter evoluído até à imagem de Deus, porque não existe qualquer intervalo de tempo entre a criação do homem e o ter sido ele feito à imagem de Deus. Está escrito: “Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez” (Gênesis 5.1).
Não importa o que alguém crê a respeito das origens, é necessário admitir que Deus, em um momento de tempo, dotou a humanidade com a imagem dEle. Um processo não pode explicar a nossa natureza singular, nem explicar o fato de que a humanidade foi contaminada pelo pecado e de que, por essa razão, Deus enviou seu Filhopara redimir somente a humanidade, e não multidões de outras formas de vida.
O ministério terreno de Cristo
Podemos examinar a mais confiável autoridade neste assunto — o Criador Encarnado, Jesus Cristo. O Salvador é, com certeza, a testemunha suprema que nos pode oferecer esclarecimento convincente sobre este assunto.
A Bíblia nos fala sobre o envolvimento dEle na Criação. As Escrituras fazem declarações fortíssimas sobre o fato de que Cristo não somente se identificou com a Criação, mas também de que Ele é o seu autor: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (João 1.3). “Nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Colossenses 1.16); “Nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hebreus 1.2).
Muitas explicações sobre a Criação exigem um intervalo de tempo significativo entre a criação da matéria e a origem do homem. Mas devemos ouvir o ensino do próprio Senhor Jesus: “Desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher” (Marcos 10.6). As palavras que Cristo utilizou deixam o intérprete sem qualquer outra alternativa, exceto a de entender que o homem foi uma parte da Criação, em seu final, e não um desenvolvimento subseqüente. Esta evidência determinativa é levada em conta somente em um modelo de criação repentina.
As palavras de Cristo são convincentes, mas a importância de suas obras poderosas (os milagres criativos) nos persuadem ainda mais. Em determinada ocasião, Ele criou vinho a partir da água (João 2.1-11). Em duas ocasiões, Jesus criou alimento em abundância para milhares de pessoas, a partir de pequena quantidade de comida (Mateus 14.13-21; 15.34-39). Em cada ocasião, o milagre ocorreu sem um processo e sem o decorrer de grandes períodos de tempo.
Deus proporcionou aos discípulos um vislumbre da glória de Cristo, em sua segunda vinda, no Monte da Transfiguração; e, através dos milagres, Deus também nos dá uma contemplação do poder criador de Jesus. Devemos observar com cuidado que Deus não somente era capaz de manifestar seu poder criador, mas também que Ele desejava fazer isso.
Os acontecimentos do fim do mundo
De todas as evidências bíblicas que indicam uma criação repentina, os acontecimentos do fim do mundo podem ser os mais convincentes. Quando consideramos a maneira como Deus resolveu concluir a história da humanidade, podemos vislumbrar como o mundo teve seu início.
Os crentes acreditam que seus corpos serão ressuscitados e transformados, para tornarem-se gloriosos e incorruptíveis. Temos todas as razões para crer que, de acordo com as Escrituras, o Senhor é capaz e está disposto a fazer isto (Daniel 12.2; João 5.29; Romanos 8.23; 1 Tessalonicenses 4.16-17; 1 Coríntios 15.51-52). Todos os corpos dos crentes serão recriados instantaneamente do pó da terra.
Isto se assemelha a uma repetição da criação de Adão. Naquele tempo, não somente um corpo será criado, mas, literalmente, serão criados os corpos de milhões que já creram em Cristo como seu Salvador. Visto que na ressurreição imensas multidões receberão corpos recriados, quão fácil pode ter sido para Deus no princípio criar Adão e Eva. Portanto, é válido concluir que o milagre maior e criativo da ressurreição permanece como um correspondente do milagre menor da Criação. Assim, a criação repentina não é apenas possível, mas também provável como manifestação da coerência divina.
O fim do mundo nos faz concluir que houve uma criação repentina, no princípio, da mesma maneira que o faz a ressurreição dos homens.Em uma rápida aplicação do seu divino poder, Ele purificará erenovará a terra maldita, por meio do fogo, de modo que ela se tornará uma nova terra (2 Pedro 3.10-13).
A eternidade futura não evoluirá do mundo presente. Pelo contrário, Deus trará ao fim o tempo presente, de modo rápido e poderoso, introduzindo a era final. Devido ao fato de que Deus reverterá, subitamente, o processo presente, é razoável crermos que Ele criou de modo semelhante (rapidamente e do nada) o mundo que agora existe. Tendo considerado o fim dos tempos, voltamos ao início. Será que Gênesis nos dá razões para crermos que a terra foi criada pessoalmente por Deus, em um breve período de tempo?
O relato de Gênesis
A gramática de Gênesis fornece algumas evidências convincentes para uma criação repentina. Por exemplo, a palavra hebraica traduzida “dia”, no contexto de Gênesis, refere-se tanto às horas de luz incluídas em um ciclo de 24 horas como a todo o período de trevas e luz (24 horas). Observe, primeiramente, que a palavra hebraica traduzida “dia”, quando acompanhada por um adjetivo numérico (por exemplo, quarto dia), nunca é utilizada de maneira figurada. Ela é sempre entendida normalmente.
Em segundo, devemos observar que no Antigo Testamento o plural da palavra hebraica “dia” nunca é utilizado de maneira figurada (por exemplo, Êxodo 20.9) fora de um contexto que fala sobre a Criação. Somos, portanto, levados a crer que tal palavra é utilizada de modo semelhante quando se refere às origens.
Em terceiro, os vocábulos “tarde” e “manhã” nunca são empregados de maneira figurada no Antigo Testamento. Eles sempre descrevem um período de 24 horas.
Em quarto, Deus nos oferece uma definição da palavra “dia” em Gênesis 1.5, designando-a como um período de luz e de trevas. Depois de criar a luz (Gênesis 1.3) e causar uma separação espacial, na terra, entre as trevas e a luz (Gênesis 1.4), Deus estabeleceu o ciclo luz-trevas como uma medida de tempo (ou seja, um dia). Este ciclo luz-trevas é melhor entendido como um movimento de rotação completo da terra, ou seja, um dia de 24 horas.
A interpretação gramatical das Escrituras é fundamental para que a compreendamos com exatidão. Estes fatos são significativos indicadores exegéticos do tempo manifestado na Criação. Eles indicam inquestionavelmente uma Criação em seis dias consecutivos, de 24 horas.
Agora voltemos nossa atenção especificamente para a criação do homem. A espécie humana não evoluiu de uma forma inferior de vida. Pelo contrário, ela foi criada por um decreto de Deus (a manifestação da vontade divina), a partir do pó inanimado (Gênesis 2.7, 3.19; Eclesiastes 3.20, 12.7). Nenhuma outra explicação sobre as origens do homem coaduna-se a esta evidente afirmação bíblica, exceto a criação repentina.
Além disso, a mulher não evoluiu do homem ou de qualquer outra criatura. Ela foi criada pessoalmente por Deus (Gênesis 2.21-23; 1 Coríntios 11.8,12), no mesmo dia em que o homem foi criado. Quando a mulher foi criada do homem, não houve grandes intervalos de tempo (uma maturação transformando-a em outro organismo). Visto que homem e mulher vieram à existência em uma seqüência de tempo muito aproximada, isto exigiu a manifestação do poder criativo de Deus, conforme proposto pelo modelo da criação repentina.
Com estes pensamentos em mente, devemos observar com atenção que não precisamos começar em Gênesis, para entendermos o que a Bíblia ensina a respeito da Criação. Havendo finalmente compreendido isso, podemos observar que Gênesis confirma o restante da Bíblia e fornece o seu irresistível apoio à opinião da criação repentina.
Um pensamento final
A argumentação e as conclusões deste artigo representam as evidências bíblicas de que temos de ser honestos, se aceitamos com seriedade o relato bíblico. Qualquer solução para o problema das origens formulada sem uma completa consideração destas evidências é completamente inadequada.
Talvez não precisemos de um computador, afinal de contas, para solucionarmos os problemas complexos relacionados à Criação. Entretanto, utilizamos a sugestão fictícia do computador e consultamos o relato bíblico. Esse é realmente o ponto de partida para todos os crentes que procuram conhecer a verdade.
John MacArhtur, autor de mais de 150 livros e conferencista internacional, é pastor da Grace Comunity Church, em Sum Valley, Califórnia, desde 1969; é presidente do Master’s College and Seminary e do ministério “Grace to You”; John e sua esposa Patrícia têm quatro filhos e quatorze netos.
Reconhecendo que a Bíblia é a própria Palavra de Deus dirigida ao homem e entendendo a prioridade de conhecer suas verdades e obedece-las, devemos estar comprometidos em estudar com diligência o ensino das Escrituras.
Quando o universo e tudo que ele contém foram criados? O que aconteceu e quanto tempo levou? Deus, o único que existia antes mesmo de o mundo ter seu início, apresenta as respostas para essas perguntas em sua revelação ao homem — a Bíblia.
O ponto de partida
Existe uma história fictícia a respeito de alguns homens que procuravam resposta para esta pergunta: de onde veio a Terra? Depois de reunirem suas informações e introduzirem-nas em um sofisticado computador, eles apertaram, com grande expectativa, a tecla de respostas. As luzes brilharam, as campainhas soaram, e o computador lhes deu a seguinte mensagem impressa: “Vejam Gênesis 1.1”. Essa história fictícia ilustra um fato crucial: Deus nos outorgou uma revelação escrita que exige averiguação primária.
Testemunho unânime
Em toda a Bíblia existem afirmações específicas testemunhando que Deus criou o mundo: “Só tu és Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora” (Neemias 9.6); “Assim diz o Senhor, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra” (Isaías 44.24); “Ah! Senhor Deus, eis que fizeste os céus e a terra com o teu grande poder e com o teu braço estendido; coisa alguma te é demasiadamente maravilhosa” (Jeremias 32.17). O apóstolo Paulo disse ao povo de Listra: “...e vos anunciamos o evangelho para que destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles” (Atos 14.15). “Todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas” (Apocalipse 4.11). Uma pesquisa mais abrangente inclui 1 Crônicas 16.25-26, Jó 38-41, Salmos 33.6, Salmos 148.1-5, Provérbios 3.19, Amós 4.13, Jonas 1.9, Zacarias 12.1, Romanos 9.20, Apocalipse 10.6 e 14.7.
As passagens da Bíblia nos mostram que uma Pessoa, e não um processo, trouxe o mundo à existência; e esta é a conclusão irrefutável: Deus é a causa primária da existência de todas as coisas.
Afirmações Diretas
Para muitos crentes sinceros, a pergunta não é: “Quem criou o mundo?, e sim: “Como Deus o criou?”
A Bíblia não se mantém em silêncio a respeito deste assunto, pois ela apresenta afirmações definitivas sobre a natureza específica da Criação, referindo-se tanto à quantidade de tempo como à fonte do material utilizado.
Primeiramente, a Bíblia nos diz quanto tempo foi gasto na criação do mundo. Quando Deus (através de Moisés) desejou ilustrar como o Quarto Mandamento deveria ser obedecido, Ele mencionou a Criação como um modelo — “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Êxodo 20.8-11).
O homem deve trabalhar seis dias (v. 9), porque em seis dias o Senhor criou os céus, a terra, o mar e tudo o que neles há (v. 11). Visto que os dias de trabalho são medidos em segmentos de 24 horas, o período de tempo da Criação (que serviu como protótipo) deve ter a mesma medida. Esta mesma lógica se aplica ao dia de descanso (vv. 10-11). Se os dias não possuem a mesma medida, em ambas as passagens, a ilustração perde seu significado.
Em segundo, o escritor da Epístola aos Hebreus nos fala sobre os materiais que Deus utilizou na Criação. “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hebreus 11.3). Não existia qualquer matéria eterna; tampouco Deus plantou as sementes que se desenvolveriam e se tornariam algo mais complexo do que elas mesmas. A Bíblia deixa claro que a criação do mundo foi ex nihilo (do nada). Isto significa que o mundo visível para nós hoje não é o resultado de imensas etapas de maturação. Pelo contrário, o mundo visível chegou à existência como resultado do ato criativo da parte de Deus, sem a utilização de materiais já existentes. Visto que Deus é a causa primária da criação especial, devemos imaginar que a sua criação tenha a sua assinatura.
A natureza de Deus
A eterna perfeição de Deus é admitida em toda a Bíblia. A admirável majestade da criação, por exemplo, reflete o poder, a glória e o domínio de Deus. “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmos 19.1).
Nenhum processo de evolução ou maturação nos mostraria, desde o princípio, a infinidade e o poder de Deus. No entanto, desde o principio, a criatura tem ficado sem desculpa por sua ignorância a respeito de Deus, pois Ele é revelado claramente na natureza de sua criação.
É possível conceber um processo evolucionário sem qualquer atividade divina. Essa é a razão por que muitos evolucionistas são ateístas e por que Deus se torna um incômodo no pensamento deles. Entretanto, não podemos ter uma criação repentina sem a atividade de Deus. Portanto, somente através da criação repentina o poder de Deus se mostraria inconfundível desde o início. Essa foi a razão por que o apóstolo Paulo disse: “Os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (Romanos 1.20).
Suponhamos, por um momento, que o mundo e seus habitantes vieram à existência por meio de um processo. O mais complexo se desenvolveria (evoluiria) a partir do mais simples. A maior parte dos evolucionistas concorda que a raça humana permanece como a epítome do processo. Se tudo isso é verdade, aquilo que é elementar a respeito da natureza do homem, também deve ser elementar no que diz respeito ao organismo original do qual o homem evoluiu.
Esta argumentação, embora atraente, é falsa por causa de pelo menos um fato bíblico elementar. O homem foi criado à imagem de Deus. Portanto, os homens não podem ter evoluído até à imagem de Deus, porque não existe qualquer intervalo de tempo entre a criação do homem e o ter sido ele feito à imagem de Deus. Está escrito: “Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez” (Gênesis 5.1).
Não importa o que alguém crê a respeito das origens, é necessário admitir que Deus, em um momento de tempo, dotou a humanidade com a imagem dEle. Um processo não pode explicar a nossa natureza singular, nem explicar o fato de que a humanidade foi contaminada pelo pecado e de que, por essa razão, Deus enviou seu Filhopara redimir somente a humanidade, e não multidões de outras formas de vida.
O ministério terreno de Cristo
Podemos examinar a mais confiável autoridade neste assunto — o Criador Encarnado, Jesus Cristo. O Salvador é, com certeza, a testemunha suprema que nos pode oferecer esclarecimento convincente sobre este assunto.
A Bíblia nos fala sobre o envolvimento dEle na Criação. As Escrituras fazem declarações fortíssimas sobre o fato de que Cristo não somente se identificou com a Criação, mas também de que Ele é o seu autor: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (João 1.3). “Nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Colossenses 1.16); “Nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hebreus 1.2).
Muitas explicações sobre a Criação exigem um intervalo de tempo significativo entre a criação da matéria e a origem do homem. Mas devemos ouvir o ensino do próprio Senhor Jesus: “Desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher” (Marcos 10.6). As palavras que Cristo utilizou deixam o intérprete sem qualquer outra alternativa, exceto a de entender que o homem foi uma parte da Criação, em seu final, e não um desenvolvimento subseqüente. Esta evidência determinativa é levada em conta somente em um modelo de criação repentina.
As palavras de Cristo são convincentes, mas a importância de suas obras poderosas (os milagres criativos) nos persuadem ainda mais. Em determinada ocasião, Ele criou vinho a partir da água (João 2.1-11). Em duas ocasiões, Jesus criou alimento em abundância para milhares de pessoas, a partir de pequena quantidade de comida (Mateus 14.13-21; 15.34-39). Em cada ocasião, o milagre ocorreu sem um processo e sem o decorrer de grandes períodos de tempo.
Deus proporcionou aos discípulos um vislumbre da glória de Cristo, em sua segunda vinda, no Monte da Transfiguração; e, através dos milagres, Deus também nos dá uma contemplação do poder criador de Jesus. Devemos observar com cuidado que Deus não somente era capaz de manifestar seu poder criador, mas também que Ele desejava fazer isso.
Os acontecimentos do fim do mundo
De todas as evidências bíblicas que indicam uma criação repentina, os acontecimentos do fim do mundo podem ser os mais convincentes. Quando consideramos a maneira como Deus resolveu concluir a história da humanidade, podemos vislumbrar como o mundo teve seu início.
Os crentes acreditam que seus corpos serão ressuscitados e transformados, para tornarem-se gloriosos e incorruptíveis. Temos todas as razões para crer que, de acordo com as Escrituras, o Senhor é capaz e está disposto a fazer isto (Daniel 12.2; João 5.29; Romanos 8.23; 1 Tessalonicenses 4.16-17; 1 Coríntios 15.51-52). Todos os corpos dos crentes serão recriados instantaneamente do pó da terra.
Isto se assemelha a uma repetição da criação de Adão. Naquele tempo, não somente um corpo será criado, mas, literalmente, serão criados os corpos de milhões que já creram em Cristo como seu Salvador. Visto que na ressurreição imensas multidões receberão corpos recriados, quão fácil pode ter sido para Deus no princípio criar Adão e Eva. Portanto, é válido concluir que o milagre maior e criativo da ressurreição permanece como um correspondente do milagre menor da Criação. Assim, a criação repentina não é apenas possível, mas também provável como manifestação da coerência divina.
O fim do mundo nos faz concluir que houve uma criação repentina, no princípio, da mesma maneira que o faz a ressurreição dos homens.Em uma rápida aplicação do seu divino poder, Ele purificará erenovará a terra maldita, por meio do fogo, de modo que ela se tornará uma nova terra (2 Pedro 3.10-13).
A eternidade futura não evoluirá do mundo presente. Pelo contrário, Deus trará ao fim o tempo presente, de modo rápido e poderoso, introduzindo a era final. Devido ao fato de que Deus reverterá, subitamente, o processo presente, é razoável crermos que Ele criou de modo semelhante (rapidamente e do nada) o mundo que agora existe. Tendo considerado o fim dos tempos, voltamos ao início. Será que Gênesis nos dá razões para crermos que a terra foi criada pessoalmente por Deus, em um breve período de tempo?
O relato de Gênesis
A gramática de Gênesis fornece algumas evidências convincentes para uma criação repentina. Por exemplo, a palavra hebraica traduzida “dia”, no contexto de Gênesis, refere-se tanto às horas de luz incluídas em um ciclo de 24 horas como a todo o período de trevas e luz (24 horas). Observe, primeiramente, que a palavra hebraica traduzida “dia”, quando acompanhada por um adjetivo numérico (por exemplo, quarto dia), nunca é utilizada de maneira figurada. Ela é sempre entendida normalmente.
Em segundo, devemos observar que no Antigo Testamento o plural da palavra hebraica “dia” nunca é utilizado de maneira figurada (por exemplo, Êxodo 20.9) fora de um contexto que fala sobre a Criação. Somos, portanto, levados a crer que tal palavra é utilizada de modo semelhante quando se refere às origens.
Em terceiro, os vocábulos “tarde” e “manhã” nunca são empregados de maneira figurada no Antigo Testamento. Eles sempre descrevem um período de 24 horas.
Em quarto, Deus nos oferece uma definição da palavra “dia” em Gênesis 1.5, designando-a como um período de luz e de trevas. Depois de criar a luz (Gênesis 1.3) e causar uma separação espacial, na terra, entre as trevas e a luz (Gênesis 1.4), Deus estabeleceu o ciclo luz-trevas como uma medida de tempo (ou seja, um dia). Este ciclo luz-trevas é melhor entendido como um movimento de rotação completo da terra, ou seja, um dia de 24 horas.
A interpretação gramatical das Escrituras é fundamental para que a compreendamos com exatidão. Estes fatos são significativos indicadores exegéticos do tempo manifestado na Criação. Eles indicam inquestionavelmente uma Criação em seis dias consecutivos, de 24 horas.
Agora voltemos nossa atenção especificamente para a criação do homem. A espécie humana não evoluiu de uma forma inferior de vida. Pelo contrário, ela foi criada por um decreto de Deus (a manifestação da vontade divina), a partir do pó inanimado (Gênesis 2.7, 3.19; Eclesiastes 3.20, 12.7). Nenhuma outra explicação sobre as origens do homem coaduna-se a esta evidente afirmação bíblica, exceto a criação repentina.
Além disso, a mulher não evoluiu do homem ou de qualquer outra criatura. Ela foi criada pessoalmente por Deus (Gênesis 2.21-23; 1 Coríntios 11.8,12), no mesmo dia em que o homem foi criado. Quando a mulher foi criada do homem, não houve grandes intervalos de tempo (uma maturação transformando-a em outro organismo). Visto que homem e mulher vieram à existência em uma seqüência de tempo muito aproximada, isto exigiu a manifestação do poder criativo de Deus, conforme proposto pelo modelo da criação repentina.
Com estes pensamentos em mente, devemos observar com atenção que não precisamos começar em Gênesis, para entendermos o que a Bíblia ensina a respeito da Criação. Havendo finalmente compreendido isso, podemos observar que Gênesis confirma o restante da Bíblia e fornece o seu irresistível apoio à opinião da criação repentina.
Um pensamento final
A argumentação e as conclusões deste artigo representam as evidências bíblicas de que temos de ser honestos, se aceitamos com seriedade o relato bíblico. Qualquer solução para o problema das origens formulada sem uma completa consideração destas evidências é completamente inadequada.
Talvez não precisemos de um computador, afinal de contas, para solucionarmos os problemas complexos relacionados à Criação. Entretanto, utilizamos a sugestão fictícia do computador e consultamos o relato bíblico. Esse é realmente o ponto de partida para todos os crentes que procuram conhecer a verdade.
segunda-feira, 15 de março de 2010
A Necessidade da Graça
Charles Haddon Spurgeon
Começando um sermão em Romanos 8.29, Spurgeon disse: .Era muito natural, portanto, que uma profunda experiência espiritual o levasse a perceber claramente as doutrinas da graça. Porque uma experiência assim é a única escola em que estas grandes verdades podem ser eficazmente aprendidas. A falta de profundidade na vida interior é a causa da maioria dos erros doutrinários na igreja. A sã convicção de pecado, a profunda humilhação em face do pecado e um senso de total fraqueza e indignidade naturalmente conduzem a mente à crença nas doutrinas da graça, enquanto que a superficialidade quanto a essas questões deixa o homem satisfeito com seu credo superficial. Os ensinamentos comumente chamados de doutrinas calvinistas, geralmente são mais apreciados e mais calorosamente recebidos por aqueles que tiveram intensos conflitos de alma e aprenderam a força da corrupção interior e a necessidade da graça divina.. Ele disse, ainda: .Que poderei dizer a vocês que são crentes, senão isto: por amor desta graça, demonstrem gratidão, vivam mais como o Senhor de vocês viveu e mais dedicados ao serviço de Deus. Procurem gastar e serem gastos nEle. Nada pode fazer um homem trabalhar por Cristo tanto como a graça gratuita; e os que crêem nesta doutrina da graça gratuita e, apesar disso, mostram-se inativos, por certo defendem a doutrina na injustiça, pois não existe princípio tão ativo e impulsionador quanto esse..
sábado, 6 de março de 2010
Predestinação
Presb. F. Solano Portela Neto
I. Introdução
Dentre as doutrinas contidas na Bíblia, a predestinação é uma das mais difíceis de serem abordadas. Creio que poderíamos identificar três razões para essa dificuldade:
1. Rejeição em função natureza pecaminosa – Nossa natureza, influenciada pelo pecado, traz uma tendência de rejeição da exaltação do Deus Soberano, ao mesmo tempo em que passa a considerar o homem superior àquilo que ele realmente é. Nesse sentido, tendemos nos apresentar numa posição de autonomia e superioridade, contrariando o que a Palavra de Deus nos revela sobre o nosso ser. As pessoas fazem um grande esforço para se desvincularem da esfera de autoridade divina, e para tirarem Deus da regência de suas vidas e do seu destino.
2. Distorção, por insuficiência de base bíblica – Às vezes, a doutrina é apresentada, ou absorvida com um exame superficial da base bíblica. Se todos os ângulos não forem estudados, ou se recorrermos mais ao “eu acho”, “eu penso”, do que a uma aceitação sem preconceitos do que a Bíblia revela, sobre as ações e planos do Deus soberano, saímos com umas idéias distorcida dessa doutrina.
3. Diluição, para facilidade de compreensão – Muitas vezes, temos a idéias de que a veracidade ou não de uma doutrina está baseada na nossa capacidade de compreensão total da mesma, esquecendo-nos de que nossa compreensão é finita, imperfeita e limitada. A diluição, ao nível de nossa capacidade, traz uma série de problemas secundários que tornam a doutrina, no cômputo final, diferente da apresentação bíblica e de impossível aceitação, mediante um estudo sério da questão.
Quando estudarmos a predestinação teremos, portanto, de estar cientes das dificuldades do estudo, mas, se tivermos seriedade e humildade para aprender o que Deus nos revelar em sua palavra, devemos ter a disposição de considerar:
1. Os dados bíblicos – examinarmos o maior número possível de passagens.
2. A necessidade de não rejeitar os conceitos bíblicos simplesmente porque estes podem fugir à nossa compreensão, ou experiência, mas deixa-los permanecer em toda a sua objetividade e lógica transcendental, gradativamente, pela ação do Espírito, penetrando em nossas convicções.
3. O testemunho histórico da Igreja – ele não determina doutrina, mas o seu estudo é relevante para vermos como Deus tem guiado a sua igreja, e para discernirmos a diferença entre inovações – ventos de doutrinas e as doutrinas verdadeiras provadas no cadinho do tempo e da história eclesiástica.
4. O fato de que, quanto mais aprendemos e exaltarmos a pessoas de Deus, mais cresceremos espiritualmente e mais chegaremos perto de nossa finalidade que á a de glorificar a ele, em todas as nossas ações.
II. O Plano de Deus
No seu relacionamento com o homem, Deus tem um PLANO, que é mais do que um mero MAPA, constituído de caminhos alternativos, para se chegar a dois destinos finais. A Bíblia nos diz que Deus tem um plano – este plano é:
A.Eterno – Is.46.9 e 10, diz: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (veja também: 2 Tm.1.9; Sl. 33.11; Is. 37.26; JR. 31.3; Mt. 25.34; 1 Pe. 1.20; Sl. 139.16; 2 Ts. 2.13; At. 15.17-18).
B. Imutável. Tg. 1. 17-18, diz: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em que não pode existir variação ou sombra de mudança...” (veja também: Is. 14.24, 27; Is. 46.10,11; Nm 23.19; Ml. 3.6).
C. Inclui os atos futuros dos homens. Isso pode ser visto em todas as profecias da Bíblia, mas considere, especialmente, Mt. 20.18 e 19: “Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte. E o entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado; mas, ao terceiro dia, ressurgirá”; e Lc. 22.22: “Porque o Filho do Homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído” (veja também: Dn. 2.28 e João 6.64).
D. Inclui os eventos não importantes, ou ocasionais. Como lemos em Pv. 16.33: “A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão” (veja também: Jn. 1.7; At. 1.24,26; Mc. 14.30; 1 Rs. 22.28-34).
E. Especifica a certeza e a inevitabilidade dos eventos. Já vimos isso em Lc. 22.22, acima, e o mesmo conceito está presente em Jo.8.20: “...ninguém o prendeu, porque não era ainda chegada a sua hora” (veja também: Gn. 41.32; Hq 2.3; Mt. 24.236; Lc. 21.24; Jr. 15.2; Jo. 14.5; Jr. 27.7).
F. Até os atos pecaminosos do homem estão incluídos (sem que Deus seja o autor de pecado). Lemos em Gn. 45.8, que as ações malévolas dos irmãos de José faziam parte do plano de Deus: “Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito”. Deus, entretanto, não é o autor do pecado, como nos ensina Tg. 1.13 e Dt. 32.4: “Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízos; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto” (veja também: Sl. 5.4; tg. 1.13; Gn. 50.20; Mt. 21.42; At. 3.17-18; Am. 3.6).
III. O livre arbítrio e a liberdade
O nosso conceito de liberdade e de livre arbítrio é muitas vezes identificado com a execução de ações erráticas, aleatórias, sem nenhum enquadramento em um modelo comportamental ou sem nenhuma ligação com a natureza e características intrínsecas das pessoas. Será que é mesmo assim? Vamos repensar um pouco os nossos conceitos, partindo de um exame da doutrina bíblica sobre a pessoa de Deus:
A. DEUS é livre ?
1. Certamente que sim! – Ele é livre em um grau muito mais alto do que qualquer outro ser. Veja a Sua liberdade expressa no Sl. 115.3: ‘No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada”; e em 1 Co. 12.11: “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um....”.
2. Isto significa que suas ações são incertas? Que ele pode mudar como um pêndulo? Pode ele quebrar o concerto com o Seu povo? Não! Por que não? Existe alguma compulsão EXTERNA obrigando-o a isto?
3. Certamente que não! Não existe nenhum agente ou força externa exercendo pressão ou autoridade sobre Deus, que é Soberano e está acima de tudo e todos.
4. ENTRETANTO, é impossível para Deus mentir! Tito 1.2 fala do “... Deus que não pode mentir...”. Por que? Porque isto seria contrário à sua natureza e aos seus atributos! O Breve Catecismo de Westminster, responde a pergunta 4 (“Quem é Deus?”) com uma descrição dos atributos de Deus:
Deus é Espírito:
Infinito Ser, Sabedoria,
Eterno Poder, Justiça,
Imutável... em sua Bondade e Verdade.
5. Portanto, nunca, na menor de Suas ações, Ele se desviará daquele padrão de perfeição que Sua própria natureza determina.
B. E o HOMEM, ele é livre?
1.SIM, o homem é livre no sentido de que suas escolhas não são determinadas, em linhas gerias, por nenhuma compulsão externa. Podemos dizer que ele tem LIVRE AGÊNCIA.
2. ENTRETANTO, suas ações são determinadas pela natureza de seu próprio caráter, e nós sabemos que esta natureza é só pecado (Rm. 3.10-23). Neste sentido, ele não tem LIVRE ARBÍTRIO de escolher o bem, pois é escravo do pecado. Este “livre arbítrio” foi perdido com a queda, em Adão.
3. Mesmo não possuindo “livre arbítrio”, definido com a possibilidade de escola do bem, a “liberdade” que possui, definida como livre agência, não é incompatível com o enquadramento do Homem nos planos divinos. Deus, soberanamente, executa os seus desígnios ATRAVÉS da vontade das suas criaturas (veja os seguintes trechos: Fp.2.13; Pv. 20.24; 2 Co. 3.5; Jr. 10.23; Rm. 9.16 e Tg. 4.13-15).
◊ Talvez não compreendamos COMO Deus faz isso – como Ele preserva a livre agência, mas executa com precisão os Seus planos. Mas a aceitação dos pontos 2 e 3, acima, é a chave para entendermos melhor a doutrina da soberania de Deus e a própria predestinação. Não é negando a existência do plano de Deus,nem diminuindo a sua soberania, que retratamos a realidade expressa na Bíblia sobre essas questões. Não possuímos “livre arbítrio”, mas Deus é infinitamente soberano e onipotente para executar seus planos, sem violão da LIVRE AGÊNCIA que nos concedeu.
IV. Deus realmente determina as ações do homem?
Cremos que sim. Na execução do seu plano soberano ele determina “tudo que acontece”, mas muitos têm dificuldade na aceitação deste fato. Na realidade, temos apenas duas posições possíveis, ou Deus determina as ações do homem, ou Ele não determina estas e o homem é completamente autônomo.
Concordamos que este é um ponto de difícil compreensão. Alguns tentam contornar este problema dizendo que Deus não determina, na realidade, mas como Ele tudo conhece de antemão, Ele “determina”, ou “predestinaria”, as coisas que Ele sabe que irão acontecer. Ou seja, a sua determinação é dependente do Seu conhecimento prévio, de sua onisciência. Com isso, procura-se deixar as pessoas “livres”.
Será que é mesmo assim e que esta posição resolve o problema? Cremos que não! Querer resolver o problema da “liberdade humana” ancorando a soberania de Deus e a sua predestinação na onisciência dele, traz uma solução apenas aparente, mas não real. A Confissão de Fé de Westminster, em seu cap. III, seção 2, diz que Deus “... não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura”.
Vejamos a posição contrária: se ele determina, simplesmente porque conhece de antemão (como, por exemplo, falando-se das profecias registradas na Palavra de Deus), na hora em que ele houvesse determinado, essas situações se tornariam fixas e imutáveis. Dificilmente um cristão dirá que Deus não é soberano, ou que ele não cumpre o que profetizou. Sendo Ele soberano as coisas serão cumpridas, como previamente registradas. Como fica, então, a defesa da liberdade irrestrita das pessoas, do “livre arbítrio”, neste sentido? E se os homens, segundo esse conceito, que são os agentes diretos do cumprimento das determinações que Deus colocou no seu plano (apenas “porque Ele já conhecia”), na última hora resolvem “mudar de idéia”, como fica esse plano de Deus? Deus também ficará mudando, a mercê das determinações do homem, e até quando?
Vemos que procurar escapar à imensa evidência bíblica que ensina a irrestrita soberania de Deus, o seu plano sábio e sua onipotência no cumprir tudo que antes predeterminou, com o sofisma de que Deus realmente não determina, mas apenas conhece previamente, não traz qualquer pretensa “liberdade” ao homem, a não ser que se pretenda reduzir o poder de Deus.
V. A Predestinação – Dentro do contexto bíblico, que estamos estudando, a Predestinação é simplesmente um ponto específico deste plano de Deus. O nosso Deus é soberano e não existe uma área sequer do universo, da nossa vida e existência, que não esteja sob esta soberania e regência, inclusive a questão da salvação de almas.
A. Definição: Poderíamos definir a Predestinação como sendo:
O aspecto da pré-ordenação de Deus, através do qual a salvação do crente é considerada efetuada de acordo com a vontade de Deus, que o chamou e o elegeu em Cristo, para a vida eterna, sendo a sua aceitação VOLUNTÁRIA, da pessoa e do sacrifício de Cristo, uma CONSEQUÊNCIA desta eleição e do trabalho do Espírito Santo, que efetiva esta eleição, tocando em seu coração e abrindo-lhe os olhos para as coisas espirituais.
B. A Fonte da Predestinação: É a Soberana Vontade de Deus. No capítulo 6 do Evangelho de João, tmos três versículos pertinentes: 37 – “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim, de modo nenhum o lançarei fora”; 44 – “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer;e eu o ressuscitarei no último dia”; e 65 – “E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido” (veja também – Ef.1.4,5 e 11; Rm.9.11,16).
C. A causa da Predestinação: É a misericórdia infinita de Deus e a manifestação de sua glória. Rm. 9.23 diz: “...a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão” (veja também – Rm. 11.33; Ef.1.6 e Jô.3.16).
D. Os objetivos da Predestinação: Pessoas pecadoras. Note Jo 1.12 e 13 – “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (veja também esses versos, todos em João 5.21; 6.65;10.26-27;12.37-41;15.16;17.6-8).
E. Os meios para a concretização da Predestinação:
1. O chamado externo – Mt.22.14 “Porque muitos são chamados, mas pouco, escolhidos”.
2. A resposta ao chamado interno (crença) – At.13.48 “...e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”.
VI. A Doutrina da Predestinação na História.
Vamos dar uma olhada “relâmpago” na acolhida, exposição e reflexos das doutrinas relacionadas com a Soberania de Deus, com Seus decretos e, especialmente, com a Predestinação através da história.
A.Entre os Judeus: Os Judeus aceitavam normalmente a idéia de Deus, expressa no Antigo a Testamento, que o apresenta como estando em controle de tudo e de todos dirigindo os passos e os destinos dos homens, como indica Pv. 16.33 – “ A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão” (veja também – Am.3.5-6; Is.45.7 e Jo 9.2).
B. Na História da Igreja Neo-testamentária:
1. Ensinada por Jesus – Jo 5.21;6.65;10.27;15.16.
2. Explanada por Paulo – Rm.9.1-16; Ef.1.4-11.
3. Registrada por João, Lucas e outros: Jo 1.12,13; At.13.48.
4. Aceita pelos Patriarcas da Igreja, como por exemplo: Policarpo, Irineu e Eusébio.
5. Contestada pelos ramos heréticos da Igreja, dos quais o maior expoente nos primeiros séculos, foi PALÁGIO, que defendia o livre arbítrio irrestrito, em oposição a AGOSTINHO, que defendeu e enalteceu a Soberania de Deus em todas as esferas, principalmente na salvação de almas.
6. Esquecida pela Igreja Católica, na medida em que ela foi formando entrelaçada ao Estado, após a regência do Imperador Constantino. Este esquecimento foi paralelo ao de outras doutrinas cardeais da Bíblia, que foram sufocadas e suplantadas pelas tradições e conveniências da Igreja concretizando-se no humanismo pragmático de Tomás de Aquino.
7. Reaparecida em todos os movimentos Pré-reforma que desabrocharam na Idade Média, sendo uma constante, paralelamente às outras doutrinas chaves da Bíblia, entre os Valdeneses (seguidores de Waldo), os Hussitas (seguidores de João Huss) os Lolardos (seguidores de Wyclif), etc.
8. Revividas por Lutero, na Reforma do Século XVI, que despertando para as doutrinas fundamentais que haviam sido mumificadas pela Igreja Católica, a defende e a proclama, principalmente em seu livro: “De Servo Arbítrio” (A Prisão do Arbítrio), escrito em resposta a Erasmo de Roterdã.
9. Constante em todos os movimentos Pós-reforma, como por exemplo nos escritos e tratados de Melânchton, Zuínglio, João Knox, etc.
10. Sistematizada, em seus ensinamentos, por João Calvino, que representa e sistematizava a posição de Paulo e de Agostinho em seu tratado “institutas da Religião Cristã”, e em outros livros e comentários bíblicos que escreveu, fundamentando a posição da Igreja Protestante contra os Arminianos.
11. Atacada apenas, nesta ocasião, por Jacobus Armínius e seus seguidores, que assumiram a posição de Pelágio (vide item 5, acima), levando ao posicionamento contrário, oficial, conhecido como os cânones de Dort (Dordrecht) – que resume a doutrina reformada sobre a soberania de Deus na salvação, refletindo, igualmente a interpretação bíblica dessas doutrinas contidas no Catecismo de Heidelberg e na Confissão de Fé de Belga.
12. Constituída no posicionamento oficial de quase todas as denominações que se afirmaram após a Reforma.
Presbiterianos – A apresentam na Confissão de Fé de Lodres (1689), na Inglaterra e 1742 nos Estados Unidos), que é semelhante em tudo à de Westminster, exceto na forma prescrita para o batismo.
Congregacionais – Na sua doutrina soteriológica se assemelhavam aos Presbiterianos. Alguns puritanos (caracterizados pela convicção plena da soberania de Deus) eram presbiterianos, outros (como Roger Williams, na América) eram batistas, mas muitos eram congregacionais, como Jonathan Edwards.
Anglicanos – Na primeira reestruturação desta Igreja, sob Edward VI, quando foram escritos os 42 Artigos de Fé, a soberania de Deus e a posição Calvinista, sobre a salvação, foi retratada e defendida.
13. Presente nas mensagens dos grandes pregadores dos séculos 17 e 19, tais como:
CHARLES SPURGEON – O grande pastor batista, que muito escreveu sobre eleição e soberania de Deus.
JOÃO WESLEY – O reavivalista, compositor de hinos e iniciador do Metodismo, de quem seu irmão Charles Weslwey mais tarde se separou, adotando posição Arminiana adversa.
J.EDWARDS E GEORGE WHITEFIELD, nos EEUU, e muitos outros de tradição puritana.
14. Considerada como esteio da Igreja e da Nação Holandesa, durante séculos (na forma mais abrangente da Soberania de deus – pois penetrou a vida plena da nação, inclusive na política), o que pode ser constatado nos movimentos missionários e de catequização deflagrados pelos holandeses nos séculos 16 e 17 e, mais contemporaneamente, nas vidas e escritos de KUYPER, BAVINCK e outros ilustres homens de Deus, daquele pais.
15. Considerada a mola mestra dos movimentos missionários desencadeados pela Igreja Norte Americana,pois constituía a doutrina explanada pelos grandes doutores, tais como Charles Hodge, Benjamin Warfield, Dabney e tantos outros. Neste sentido, esteve presente no Brasil desde o início da Igreja Presbiteriana, pois era a doutrina dos antigos missionários (a começar com Simonton – discípulo de Hodge) e dos primeiros pastores formados por estes, tais como o Dr. Antônio Almeida e muitos outros.
16. Infelizmente, esquecida e relegada a segundo plano por quase todo o mundo evangélico contemporâneo, mais preocupado que está com os “modismos” da época, em vez de concentração nas raízes sólidas da doutrina bíblica e na aplicação destas às pessoas, em todas as suas atividades. Este esquecimento foi provavelmente causado pelo advento do Dispensacionalismo,há cerca de 150 anos, que, popularizado pela Bíblia de Scofield, tomo conta da mensagem e da teologia da maioria das denominações, até da Igreja Presbiteriana, no maior reavivamento de Pelagianismo e Arminianismo desde a aparição destas correntes.
17. Necessária no ensinamento das Igrejas, que deveriam rever os seus Padrões de Doutrinas, achegando-se cada vez mais à Palavra, para que a posição de Deus venha a ser exlatada, e para que o Evangelho puro possa ser pregado para a glória do Seu Nome.
Acreditamos, portanto, que a Doutrina da Predestinação é bíblica; harmoniza-se com o todo da revelação da pessoa de Deus, conforme as Escrituras; e tem sido sustentada pelo testemunho dos segmentos fiéis da igreja de Cristo. Em artigo próximo, examinaremos algumas objeções contra a doutrina da predestinação e concluiremos este estudo.
I. Introdução
Dentre as doutrinas contidas na Bíblia, a predestinação é uma das mais difíceis de serem abordadas. Creio que poderíamos identificar três razões para essa dificuldade:
1. Rejeição em função natureza pecaminosa – Nossa natureza, influenciada pelo pecado, traz uma tendência de rejeição da exaltação do Deus Soberano, ao mesmo tempo em que passa a considerar o homem superior àquilo que ele realmente é. Nesse sentido, tendemos nos apresentar numa posição de autonomia e superioridade, contrariando o que a Palavra de Deus nos revela sobre o nosso ser. As pessoas fazem um grande esforço para se desvincularem da esfera de autoridade divina, e para tirarem Deus da regência de suas vidas e do seu destino.
2. Distorção, por insuficiência de base bíblica – Às vezes, a doutrina é apresentada, ou absorvida com um exame superficial da base bíblica. Se todos os ângulos não forem estudados, ou se recorrermos mais ao “eu acho”, “eu penso”, do que a uma aceitação sem preconceitos do que a Bíblia revela, sobre as ações e planos do Deus soberano, saímos com umas idéias distorcida dessa doutrina.
3. Diluição, para facilidade de compreensão – Muitas vezes, temos a idéias de que a veracidade ou não de uma doutrina está baseada na nossa capacidade de compreensão total da mesma, esquecendo-nos de que nossa compreensão é finita, imperfeita e limitada. A diluição, ao nível de nossa capacidade, traz uma série de problemas secundários que tornam a doutrina, no cômputo final, diferente da apresentação bíblica e de impossível aceitação, mediante um estudo sério da questão.
Quando estudarmos a predestinação teremos, portanto, de estar cientes das dificuldades do estudo, mas, se tivermos seriedade e humildade para aprender o que Deus nos revelar em sua palavra, devemos ter a disposição de considerar:
1. Os dados bíblicos – examinarmos o maior número possível de passagens.
2. A necessidade de não rejeitar os conceitos bíblicos simplesmente porque estes podem fugir à nossa compreensão, ou experiência, mas deixa-los permanecer em toda a sua objetividade e lógica transcendental, gradativamente, pela ação do Espírito, penetrando em nossas convicções.
3. O testemunho histórico da Igreja – ele não determina doutrina, mas o seu estudo é relevante para vermos como Deus tem guiado a sua igreja, e para discernirmos a diferença entre inovações – ventos de doutrinas e as doutrinas verdadeiras provadas no cadinho do tempo e da história eclesiástica.
4. O fato de que, quanto mais aprendemos e exaltarmos a pessoas de Deus, mais cresceremos espiritualmente e mais chegaremos perto de nossa finalidade que á a de glorificar a ele, em todas as nossas ações.
II. O Plano de Deus
No seu relacionamento com o homem, Deus tem um PLANO, que é mais do que um mero MAPA, constituído de caminhos alternativos, para se chegar a dois destinos finais. A Bíblia nos diz que Deus tem um plano – este plano é:
A.Eterno – Is.46.9 e 10, diz: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (veja também: 2 Tm.1.9; Sl. 33.11; Is. 37.26; JR. 31.3; Mt. 25.34; 1 Pe. 1.20; Sl. 139.16; 2 Ts. 2.13; At. 15.17-18).
B. Imutável. Tg. 1. 17-18, diz: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em que não pode existir variação ou sombra de mudança...” (veja também: Is. 14.24, 27; Is. 46.10,11; Nm 23.19; Ml. 3.6).
C. Inclui os atos futuros dos homens. Isso pode ser visto em todas as profecias da Bíblia, mas considere, especialmente, Mt. 20.18 e 19: “Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte. E o entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado; mas, ao terceiro dia, ressurgirá”; e Lc. 22.22: “Porque o Filho do Homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído” (veja também: Dn. 2.28 e João 6.64).
D. Inclui os eventos não importantes, ou ocasionais. Como lemos em Pv. 16.33: “A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão” (veja também: Jn. 1.7; At. 1.24,26; Mc. 14.30; 1 Rs. 22.28-34).
E. Especifica a certeza e a inevitabilidade dos eventos. Já vimos isso em Lc. 22.22, acima, e o mesmo conceito está presente em Jo.8.20: “...ninguém o prendeu, porque não era ainda chegada a sua hora” (veja também: Gn. 41.32; Hq 2.3; Mt. 24.236; Lc. 21.24; Jr. 15.2; Jo. 14.5; Jr. 27.7).
F. Até os atos pecaminosos do homem estão incluídos (sem que Deus seja o autor de pecado). Lemos em Gn. 45.8, que as ações malévolas dos irmãos de José faziam parte do plano de Deus: “Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito”. Deus, entretanto, não é o autor do pecado, como nos ensina Tg. 1.13 e Dt. 32.4: “Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízos; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto” (veja também: Sl. 5.4; tg. 1.13; Gn. 50.20; Mt. 21.42; At. 3.17-18; Am. 3.6).
III. O livre arbítrio e a liberdade
O nosso conceito de liberdade e de livre arbítrio é muitas vezes identificado com a execução de ações erráticas, aleatórias, sem nenhum enquadramento em um modelo comportamental ou sem nenhuma ligação com a natureza e características intrínsecas das pessoas. Será que é mesmo assim? Vamos repensar um pouco os nossos conceitos, partindo de um exame da doutrina bíblica sobre a pessoa de Deus:
A. DEUS é livre ?
1. Certamente que sim! – Ele é livre em um grau muito mais alto do que qualquer outro ser. Veja a Sua liberdade expressa no Sl. 115.3: ‘No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada”; e em 1 Co. 12.11: “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um....”.
2. Isto significa que suas ações são incertas? Que ele pode mudar como um pêndulo? Pode ele quebrar o concerto com o Seu povo? Não! Por que não? Existe alguma compulsão EXTERNA obrigando-o a isto?
3. Certamente que não! Não existe nenhum agente ou força externa exercendo pressão ou autoridade sobre Deus, que é Soberano e está acima de tudo e todos.
4. ENTRETANTO, é impossível para Deus mentir! Tito 1.2 fala do “... Deus que não pode mentir...”. Por que? Porque isto seria contrário à sua natureza e aos seus atributos! O Breve Catecismo de Westminster, responde a pergunta 4 (“Quem é Deus?”) com uma descrição dos atributos de Deus:
Deus é Espírito:
Infinito Ser, Sabedoria,
Eterno Poder, Justiça,
Imutável... em sua Bondade e Verdade.
5. Portanto, nunca, na menor de Suas ações, Ele se desviará daquele padrão de perfeição que Sua própria natureza determina.
B. E o HOMEM, ele é livre?
1.SIM, o homem é livre no sentido de que suas escolhas não são determinadas, em linhas gerias, por nenhuma compulsão externa. Podemos dizer que ele tem LIVRE AGÊNCIA.
2. ENTRETANTO, suas ações são determinadas pela natureza de seu próprio caráter, e nós sabemos que esta natureza é só pecado (Rm. 3.10-23). Neste sentido, ele não tem LIVRE ARBÍTRIO de escolher o bem, pois é escravo do pecado. Este “livre arbítrio” foi perdido com a queda, em Adão.
3. Mesmo não possuindo “livre arbítrio”, definido com a possibilidade de escola do bem, a “liberdade” que possui, definida como livre agência, não é incompatível com o enquadramento do Homem nos planos divinos. Deus, soberanamente, executa os seus desígnios ATRAVÉS da vontade das suas criaturas (veja os seguintes trechos: Fp.2.13; Pv. 20.24; 2 Co. 3.5; Jr. 10.23; Rm. 9.16 e Tg. 4.13-15).
◊ Talvez não compreendamos COMO Deus faz isso – como Ele preserva a livre agência, mas executa com precisão os Seus planos. Mas a aceitação dos pontos 2 e 3, acima, é a chave para entendermos melhor a doutrina da soberania de Deus e a própria predestinação. Não é negando a existência do plano de Deus,nem diminuindo a sua soberania, que retratamos a realidade expressa na Bíblia sobre essas questões. Não possuímos “livre arbítrio”, mas Deus é infinitamente soberano e onipotente para executar seus planos, sem violão da LIVRE AGÊNCIA que nos concedeu.
IV. Deus realmente determina as ações do homem?
Cremos que sim. Na execução do seu plano soberano ele determina “tudo que acontece”, mas muitos têm dificuldade na aceitação deste fato. Na realidade, temos apenas duas posições possíveis, ou Deus determina as ações do homem, ou Ele não determina estas e o homem é completamente autônomo.
Concordamos que este é um ponto de difícil compreensão. Alguns tentam contornar este problema dizendo que Deus não determina, na realidade, mas como Ele tudo conhece de antemão, Ele “determina”, ou “predestinaria”, as coisas que Ele sabe que irão acontecer. Ou seja, a sua determinação é dependente do Seu conhecimento prévio, de sua onisciência. Com isso, procura-se deixar as pessoas “livres”.
Será que é mesmo assim e que esta posição resolve o problema? Cremos que não! Querer resolver o problema da “liberdade humana” ancorando a soberania de Deus e a sua predestinação na onisciência dele, traz uma solução apenas aparente, mas não real. A Confissão de Fé de Westminster, em seu cap. III, seção 2, diz que Deus “... não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura”.
Vejamos a posição contrária: se ele determina, simplesmente porque conhece de antemão (como, por exemplo, falando-se das profecias registradas na Palavra de Deus), na hora em que ele houvesse determinado, essas situações se tornariam fixas e imutáveis. Dificilmente um cristão dirá que Deus não é soberano, ou que ele não cumpre o que profetizou. Sendo Ele soberano as coisas serão cumpridas, como previamente registradas. Como fica, então, a defesa da liberdade irrestrita das pessoas, do “livre arbítrio”, neste sentido? E se os homens, segundo esse conceito, que são os agentes diretos do cumprimento das determinações que Deus colocou no seu plano (apenas “porque Ele já conhecia”), na última hora resolvem “mudar de idéia”, como fica esse plano de Deus? Deus também ficará mudando, a mercê das determinações do homem, e até quando?
Vemos que procurar escapar à imensa evidência bíblica que ensina a irrestrita soberania de Deus, o seu plano sábio e sua onipotência no cumprir tudo que antes predeterminou, com o sofisma de que Deus realmente não determina, mas apenas conhece previamente, não traz qualquer pretensa “liberdade” ao homem, a não ser que se pretenda reduzir o poder de Deus.
V. A Predestinação – Dentro do contexto bíblico, que estamos estudando, a Predestinação é simplesmente um ponto específico deste plano de Deus. O nosso Deus é soberano e não existe uma área sequer do universo, da nossa vida e existência, que não esteja sob esta soberania e regência, inclusive a questão da salvação de almas.
A. Definição: Poderíamos definir a Predestinação como sendo:
O aspecto da pré-ordenação de Deus, através do qual a salvação do crente é considerada efetuada de acordo com a vontade de Deus, que o chamou e o elegeu em Cristo, para a vida eterna, sendo a sua aceitação VOLUNTÁRIA, da pessoa e do sacrifício de Cristo, uma CONSEQUÊNCIA desta eleição e do trabalho do Espírito Santo, que efetiva esta eleição, tocando em seu coração e abrindo-lhe os olhos para as coisas espirituais.
B. A Fonte da Predestinação: É a Soberana Vontade de Deus. No capítulo 6 do Evangelho de João, tmos três versículos pertinentes: 37 – “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim, de modo nenhum o lançarei fora”; 44 – “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer;e eu o ressuscitarei no último dia”; e 65 – “E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido” (veja também – Ef.1.4,5 e 11; Rm.9.11,16).
C. A causa da Predestinação: É a misericórdia infinita de Deus e a manifestação de sua glória. Rm. 9.23 diz: “...a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão” (veja também – Rm. 11.33; Ef.1.6 e Jô.3.16).
D. Os objetivos da Predestinação: Pessoas pecadoras. Note Jo 1.12 e 13 – “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (veja também esses versos, todos em João 5.21; 6.65;10.26-27;12.37-41;15.16;17.6-8).
E. Os meios para a concretização da Predestinação:
1. O chamado externo – Mt.22.14 “Porque muitos são chamados, mas pouco, escolhidos”.
2. A resposta ao chamado interno (crença) – At.13.48 “...e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”.
VI. A Doutrina da Predestinação na História.
Vamos dar uma olhada “relâmpago” na acolhida, exposição e reflexos das doutrinas relacionadas com a Soberania de Deus, com Seus decretos e, especialmente, com a Predestinação através da história.
A.Entre os Judeus: Os Judeus aceitavam normalmente a idéia de Deus, expressa no Antigo a Testamento, que o apresenta como estando em controle de tudo e de todos dirigindo os passos e os destinos dos homens, como indica Pv. 16.33 – “ A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão” (veja também – Am.3.5-6; Is.45.7 e Jo 9.2).
B. Na História da Igreja Neo-testamentária:
1. Ensinada por Jesus – Jo 5.21;6.65;10.27;15.16.
2. Explanada por Paulo – Rm.9.1-16; Ef.1.4-11.
3. Registrada por João, Lucas e outros: Jo 1.12,13; At.13.48.
4. Aceita pelos Patriarcas da Igreja, como por exemplo: Policarpo, Irineu e Eusébio.
5. Contestada pelos ramos heréticos da Igreja, dos quais o maior expoente nos primeiros séculos, foi PALÁGIO, que defendia o livre arbítrio irrestrito, em oposição a AGOSTINHO, que defendeu e enalteceu a Soberania de Deus em todas as esferas, principalmente na salvação de almas.
6. Esquecida pela Igreja Católica, na medida em que ela foi formando entrelaçada ao Estado, após a regência do Imperador Constantino. Este esquecimento foi paralelo ao de outras doutrinas cardeais da Bíblia, que foram sufocadas e suplantadas pelas tradições e conveniências da Igreja concretizando-se no humanismo pragmático de Tomás de Aquino.
7. Reaparecida em todos os movimentos Pré-reforma que desabrocharam na Idade Média, sendo uma constante, paralelamente às outras doutrinas chaves da Bíblia, entre os Valdeneses (seguidores de Waldo), os Hussitas (seguidores de João Huss) os Lolardos (seguidores de Wyclif), etc.
8. Revividas por Lutero, na Reforma do Século XVI, que despertando para as doutrinas fundamentais que haviam sido mumificadas pela Igreja Católica, a defende e a proclama, principalmente em seu livro: “De Servo Arbítrio” (A Prisão do Arbítrio), escrito em resposta a Erasmo de Roterdã.
9. Constante em todos os movimentos Pós-reforma, como por exemplo nos escritos e tratados de Melânchton, Zuínglio, João Knox, etc.
10. Sistematizada, em seus ensinamentos, por João Calvino, que representa e sistematizava a posição de Paulo e de Agostinho em seu tratado “institutas da Religião Cristã”, e em outros livros e comentários bíblicos que escreveu, fundamentando a posição da Igreja Protestante contra os Arminianos.
11. Atacada apenas, nesta ocasião, por Jacobus Armínius e seus seguidores, que assumiram a posição de Pelágio (vide item 5, acima), levando ao posicionamento contrário, oficial, conhecido como os cânones de Dort (Dordrecht) – que resume a doutrina reformada sobre a soberania de Deus na salvação, refletindo, igualmente a interpretação bíblica dessas doutrinas contidas no Catecismo de Heidelberg e na Confissão de Fé de Belga.
12. Constituída no posicionamento oficial de quase todas as denominações que se afirmaram após a Reforma.
Presbiterianos – A apresentam na Confissão de Fé de Lodres (1689), na Inglaterra e 1742 nos Estados Unidos), que é semelhante em tudo à de Westminster, exceto na forma prescrita para o batismo.
Congregacionais – Na sua doutrina soteriológica se assemelhavam aos Presbiterianos. Alguns puritanos (caracterizados pela convicção plena da soberania de Deus) eram presbiterianos, outros (como Roger Williams, na América) eram batistas, mas muitos eram congregacionais, como Jonathan Edwards.
Anglicanos – Na primeira reestruturação desta Igreja, sob Edward VI, quando foram escritos os 42 Artigos de Fé, a soberania de Deus e a posição Calvinista, sobre a salvação, foi retratada e defendida.
13. Presente nas mensagens dos grandes pregadores dos séculos 17 e 19, tais como:
CHARLES SPURGEON – O grande pastor batista, que muito escreveu sobre eleição e soberania de Deus.
JOÃO WESLEY – O reavivalista, compositor de hinos e iniciador do Metodismo, de quem seu irmão Charles Weslwey mais tarde se separou, adotando posição Arminiana adversa.
J.EDWARDS E GEORGE WHITEFIELD, nos EEUU, e muitos outros de tradição puritana.
14. Considerada como esteio da Igreja e da Nação Holandesa, durante séculos (na forma mais abrangente da Soberania de deus – pois penetrou a vida plena da nação, inclusive na política), o que pode ser constatado nos movimentos missionários e de catequização deflagrados pelos holandeses nos séculos 16 e 17 e, mais contemporaneamente, nas vidas e escritos de KUYPER, BAVINCK e outros ilustres homens de Deus, daquele pais.
15. Considerada a mola mestra dos movimentos missionários desencadeados pela Igreja Norte Americana,pois constituía a doutrina explanada pelos grandes doutores, tais como Charles Hodge, Benjamin Warfield, Dabney e tantos outros. Neste sentido, esteve presente no Brasil desde o início da Igreja Presbiteriana, pois era a doutrina dos antigos missionários (a começar com Simonton – discípulo de Hodge) e dos primeiros pastores formados por estes, tais como o Dr. Antônio Almeida e muitos outros.
16. Infelizmente, esquecida e relegada a segundo plano por quase todo o mundo evangélico contemporâneo, mais preocupado que está com os “modismos” da época, em vez de concentração nas raízes sólidas da doutrina bíblica e na aplicação destas às pessoas, em todas as suas atividades. Este esquecimento foi provavelmente causado pelo advento do Dispensacionalismo,há cerca de 150 anos, que, popularizado pela Bíblia de Scofield, tomo conta da mensagem e da teologia da maioria das denominações, até da Igreja Presbiteriana, no maior reavivamento de Pelagianismo e Arminianismo desde a aparição destas correntes.
17. Necessária no ensinamento das Igrejas, que deveriam rever os seus Padrões de Doutrinas, achegando-se cada vez mais à Palavra, para que a posição de Deus venha a ser exlatada, e para que o Evangelho puro possa ser pregado para a glória do Seu Nome.
Acreditamos, portanto, que a Doutrina da Predestinação é bíblica; harmoniza-se com o todo da revelação da pessoa de Deus, conforme as Escrituras; e tem sido sustentada pelo testemunho dos segmentos fiéis da igreja de Cristo. Em artigo próximo, examinaremos algumas objeções contra a doutrina da predestinação e concluiremos este estudo.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Eutanásia
Salmo 31.5 "nas tuas mãos entrego o meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus de verdade".
Introdução
Mesmo que a maioria das correntes de pensamentos atribua valor à vida, o critério de valor difere muito em cada uma dessas. Muitas contradizem o ensinamento da Palavra de Deus levando a decisões meramente utilitárias quanto ao término da vida humana. Essa situação faz com que o servo de Deus necessite basear suas convicções sobre a rejeição da eutanásia naquilo que a Bíblia nos revela sobre essa questão fazendo-o assumir uma postura positiva na preservação da vida e no cuidado aos que sofrem.
Simplificadamente, definimos eutanásia como o esforço humano no sentido de apressar a morte própria, ou a de um parente ou de alguém que está em sofrimento. Ela é apresentada pelos defensores como sendo uma extensão dos direitos humanos, no sentido de que cada um deveria ter o direito a decidir sobre a própria vida. O assunto, entretanto, transcende o suposto direito ao suicídio, pois postula o direito de alguém decidir sobre a vida de outro, baseado em uma condição arbitrária e intangível – a existência ou não de qualidade naquela vida a ser terminada.
Quando tratamos de eutanásia, não estamos falando de pena de morte, que é a execução de uma sentença punitiva, retributiva, procedente de um tribunal legalmente estabelecido e seguindo procedimentos uniformes. É verdade que a pena de morte envolve a decisão sobre a vida de outros, mas eutanásia baseia-se na aferição subjetiva da vida que deveria ser terminada, examinando-se se ela perdeu o sentido, a qualidade ou o seu propósito.
Normalmente a maioria dos argumentos, tanto dos oponentes como dos defensores da eutanásia é baseada apenas na experiência e nos relatos de casos:
a. Os proponentes da eutanásia, apresentarão uma experiência após outra de dor, sofrimento, despesas indevidas, que sacrificaram os vivos e sãos, somente para resultar na inevitável morte.
b. Aqueles que se colocam contra a eutanásia, desfilam experiência após outra de casos aparentemente perdidos, de pessoas que se encontravam em extremo sofrimento e que só aguardavam (ansiosamente) a morte, para depois se recuperarem e viverem vidas produtivas e, principalmente, abençoadas para vários com quem mantiveram contato.
Reconhecemos que sensibilidade e entendimento provêm da experiência, mas o cristão tem por dever procurar sua postura ética e firmar a sua reação perante os problemas existenciais que a sociedade lhe aponta, como resultado de um desejo intenso e sincero de conhecer o que a Palavra de Deus fala, indica ou infere sobre o assunto. O que terá a Bíblia a dizer sobre a Eutanásia? Encontramos casos de término abreviado ou induzido da vida, aprovados por Deus? O que terá a Palavra de Deus a nos ensinar sobre esse assunto?
Questões sobre a eutanásia são bastante complexas e não poderiam ser examinadas em todos os detalhes nesse espaço nem respondermos a todas. Gostaríamos, entretanto, de levantar alguns princípios bíblicos que podem nortear a nossa discussão e firmar nossas convicções.
1. A Relevância do Debate sobre a Eutanásia
Eutanásia é um assunto que vem recebendo cada vez mais atenção em todo o mundo. Você sabia que existe uma organização mundial chamada ERGO (Euthanasia Research & Guidance Organization -- Organização de Pesquisa e Direcionamento sobre a Eutanásia), que publica seus anúncios e trabalhos na Internet? Na realidade, existem tantas organizações defensoras da Eutanásia, que elas se estruturaram em uma federação mundial (a World Federation of Right to Die Societies, ou Federação Mundial das Sociedades do Direito à Morte). Nos Estados Unidos, o estado do Oregon promulgou uma legislação que permitia a eutanásia, em 1987, chamado de Ato de Morte com Dignidade. Esta lei foi, posteriormente, em 1994 e 1997, submetida a dois plebiscitos, que a repeliram. Vários estados, dos Estados Unidos, possuem atos legislativos que estão presentemente sendo questionados na Corte Suprema daquele país, equivalente ao nosso Superior Tribunal Federal. Na Austrália, o território do Norte emitiu legislação permitindo a eutanásia, em 1995. Essa lei foi, em 1997, repelida pelo Parlamento Federal Australiano. Em paralelo a tudo isso, provavelmente todos já acompanharam as notícias contemporâneas sobre o trabalho do médico norte-americano, Dr. Jack Kevorkian, inventor da máquina do suicídio, que auxiliou pessoalmente várias pessoas a encontrarem a morte. Este médico, presentemente, responde a vários processos criminais, em função de suas ações em favor da eutanásia.
2. O Valor da Vida.
O humanismo secular reconhece valor à vida, mas atribui a essa uma qualidade que é circunstancial (dependente das circunstâncias). Nesse sentido, a aferição subjetiva da qualidade de vida é determinante no julgamento se esta vida deve ser terminada ou não. A visão bíblica apresenta o valor da vida, como uma questão inerente ao fato de que ela é um dom de Deus. A própria criação da vida humana representa o ápice do trabalho criativo de Deus (Gn 1.26) e é chamado na Bíblia como sendo a "coroa da Criação". Como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus o seu valor não se desvanece.
A visão humanista identifica sofrimento como sendo um fator que diminui essa "qualidade" de vida, chegando a legitimar o término dessa, quer voluntariamente, quer pelo arbítrio ou determinação de outro, como, por exemplo, a de um parente próximo.
A visão bíblica, além de atribuir valor intrínseco à vida, e não circunstancial, possui outra visão do sofrimento. Ela reconhece que sofrimento não é algo desejável e pode diminuir o nosso desfrutar imediato desta vida, numa visão meramente temporal, como registra Paulo em 1 Co 1.8, "...a tribulação que nos sobreveio... foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida". O sofrimento também pode ocorrer como resultado direto do pecado (Tg 4.8-9), mas, em várias ocasiões, ocorre dentro dos propósitos insondáveis de Deus, com a finalidade didática de nos ensinar alguma coisa. Nesse sentido, paradoxalmente, em vez de retirar qualidade da vida, pode adicionar qualidade real. O sofrimento pode fazer com que nos acheguemos e dependamos mais de Deus e capacitar, tanto ao que sofre como aos que dele precisam cuidar, ao aprendizado de lições preciosas para o crescimento conjunto dos fiéis, como ensina 2 Cr 1.3 e 4, que diz: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus". Com essa visão, pensando nos resultados benéficos, podemos até nos gloriar nas tribulações (Rm. 5.3-4).
Paulo também nos escreve que "aprendeu o segredo de estar contente em qualquer e toda situação" (Fl. 4.12). Não podemos confundir o direito de procurar a felicidade (dádiva de Deus aos homens), com o direito inexistente de se obter felicidade (prerrogativa da soberania de Deus). Ou seja, a ausência de felicidade aparente e temporal não diminui a qualidade de vida e não nos dá nenhuma prerrogativa sobre a decisão de vida ou morte, nossa e de outros, como defendem os proponentes da eutanásia.
3. Uma visão errada da morte.
Os proponentes da eutanásia olham a morte como uma "libertação" do sofrimento, mas possuem uma visão distorcida da existência, pois não consideram:
• Que a morte é algo não natural, ou seja, é fruto do pecado e sobrevem ao homem em função da queda (Rm. 5.12).
• Que a morte dos justificados por Deus, pelo trabalho de Cristo Jesus, é "preciosa aos olhos do Senhor" (Sl 116.12) porque por ela já se encontrarão com o seu criador, mas em nenhuma passagem há aprovação para que essa morte seja apressada ou para que a vida seja terminada arbitrariamente, essa morte ocorre no seio da providência divina.
• Que a morte dos ímpios, longe de ser liberação de sofrimento, é o início do sofrimento eterno maior (Hb 9.27 e 10.31).
Qualquer compreensão meramente utilitária da vida e da morte, que não leve em consideração o fator "pecado" e o trabalho de redenção do nosso Senhor Jesus Cristo, não pode ser abraçado ou defendido pelo crente, pois fugirá aos ensinamentos da Palavra de Deus, nossa única regra de fé e de prática.
4. A Eutanásia e o Aborto.
Aqueles que defendem a eutanásia não gostam de classificar o aborto como tal, mas existe muita semelhança, porque o aborto, como está sendo amplamente praticado em vários países do mundo ocidental, é o término de uma vida humana, baseado numa decisão utilitária de outra pessoa. Também diz-se que o feto não possui ainda "qualidade de vida". Podemos ver, assim, a semelhança da argumentação com a defesa da eutanásia. Não é nosso propósito tratar do aborto, mas esse é claramente contrário à palavra de Deus, que se refere ao feto como uma pessoa em vário trechos (ex.: Salmo 51.5; Lucas 1.41).
5. Qual Seria o Padrão Para Determinar o Término da Vida?
Os que defendem o término prematuro da vida dizem que a definição de interrupção da vida não é aleatória, mas segue certas regras pré-estabelecidas. Por elas o julgamento seria exercitado. Mas essas regras, quando examinadas, mostram-se subjetivas e realmente aleatórias. Por exemplo, os defensores do aborto dizem que o padrão de julgamento para sua execução é unicamente a mera vontade da mãe: "a mulher é dona de seu próprio corpo...", dizem e se a gravidez não tiver sido desejada a vida pode ser terminada. Nos abortos chamados de "terapêuticos" os pontos a considerar são a possibilidade de morte da mãe e a possibilidade de problemas físicos ou mentais, do bebê a nascer. É fácil de ver que assim que abrimos portas começamos a atravessar barreiras éticas estabelecidas pela Palavra de Deus e a tomar decisões egoístas, que não nos competem e que fogem à nossa capacidade de conhecimento. Se as definições nesse campo forem meramente práticas podemos, com facilidade, cair no que ocorre na Índia onde o aborto é praticado, ainda que ilegalmente, como base de seleção do sexo da criança. Semelhante definição é encontrada em muitas tribos de índios, que matam o primeiro recém-nascido se for do sexo feminino (a antiga prática da tribo Dâw, no norte do Amazonas, por exemplo, é a de deixar o primeiro recém-nascido, se do sexo feminino, ao relento para morrer por falta de cuidado).
Será que o padrão de término de uma vida pode ser assim subjetivamente estabelecido? Ele poderia ser dependente apenas da cabeça e das conclusões de cada um? Se esse padrão, ou essa maneira de gerarmos padrões, for aceita, o que impedirá de partirmos da eutanásia e aborto voluntário para a eutanásia e aborto imposto? O que impedirá que as pessoas virem vítimas, não apenas de seus próprios pecados e decisões erradas próprias, mas também de políticas populacionais, sociais, ou raciais, estabelecidos por um organismo maior – governamental ou eclesiástico? Vamos passar a defender o aborto obrigatório para diminuir os bolsões de pobreza? Não podemos esquecer o que já aconteceu na história. Na Alemanha Nazista do III Reich havia uma expressão: leibensunwertes Leben – "a vida que não vale a vida". Com esse moto justificou-se o genocídio e a matança de judeus, ciganos e pessoas aleijadas, pois a vida deles não "valia a pena ser vivida". Hoje em dia vemos a nossa sociedade usurpar o lugar de Deus e procurar passar a determinar sobre quem deve ou pode morrer, fugindo totalmente aos padrões estabelecidos por Deus, em Sua Palavra.
6. Alguns Pontos Essenciais a Lembrar.
No meio desse debate, vamos nos lembrar desses seguintes pontos essenciais que nos são ensinados na Bíblia:
a. A vida é uma dádiva preciosa de Deus (Gen 1.20-25).
b. A vida humana é especialmente preciosa, porque Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Devemos portanto preservá-la e não tirá-la (Gen. 1.26 e 9.5-6).
c. A morte não é o fim e nem uma fuga em si ao sofrimento, mas ela é o resultado do pecado (Rom. 6.23).
d. Muitas vezes ela ocorre com sofrimento e dor, nos propósitos insondáveis de Deus, como tribulação e dor podem ocorrer sem relacionamento direto com a morte (2 Cor. 4.8-10).
e. Esse sofrimento nem sempre é uma conseqüência direta do pecado (João 9.3), mas ocorre para que Deus seja glorificado.
f. O destemor da morte é uma característica do servo de Deus (Fil. 1.21).
g. É verdade que servos de Deus muitas vezes expressaram o desejo de morrer antes do tempo apontado por Deus, buscando encontrá-lo (Fil. 1.23), mas submeteram-se à vontade de Deus em suas vidas, sendo o exemplo maior o do nosso Senhor Jesus Cristo (Mat. 26.39).
h. O homem é limitado em sua perspectiva e não pode definir os seus passos pelos resultados que espera (pragmatismo) pois esses não lhe são conhecidos (Mat. 26.29).
Os padrões éticos do crente são encontrados na Palavra de Deus e nela achamos todo o incentivo para valorizarmos a vida e nos empenharmos em preservá-la, suportando as tribulações com paciência e perseverança, para a Glória de Deus.
Conclusão
Como dissemos no início, eutanásia é um assunto complexo e nem todas as questões podem ser respondidas. Nossas experiências variam, mas as Escrituras fornecem uma âncora às decisões individuais que devem ser tomadas com a consciência tranqüila perante Deus. Os princípios são claros e devem ser observados, mas a aplicação específica nem sempre é tão evidente ou fácil. A maioria de nós terá que tomar decisões, cedo ou tarde, sobre o cuidado de nossos amados que podem se achar em situação de prolongado sofrimento. Outros trabalham em hospitais superlotados e mal equipados onde as possibilidades para salvar vidas são limitadas e escolhas são feitas a cada dia – quem deve ser salvo? Qual o caso mais grave? Quem melhor "potencial" de vida? Quem tem "pior qualidade" de vida? Como decidir o que não conhecemos? Podemos até nos encontrar em uma situação na qual seremos participantes involuntários das decisões de outras pessoas de maior autoridade.
É importante sabermos que não nos compete tomar a vida, mas temos, sim, o dever de preservá-la. Temos que nos lembrar que Deus ama aos Seus e está ciente dos seus sofrimentos e das suas dores. Ele pode nos sustentar e nas ocasiões em que tivermos de tomar decisões, vamos buscar a sua presença em oração, e, com a Palavra de Deus na mão, aplicar os Seus princípios.
Presb. Solano Portela
Introdução
Mesmo que a maioria das correntes de pensamentos atribua valor à vida, o critério de valor difere muito em cada uma dessas. Muitas contradizem o ensinamento da Palavra de Deus levando a decisões meramente utilitárias quanto ao término da vida humana. Essa situação faz com que o servo de Deus necessite basear suas convicções sobre a rejeição da eutanásia naquilo que a Bíblia nos revela sobre essa questão fazendo-o assumir uma postura positiva na preservação da vida e no cuidado aos que sofrem.
Simplificadamente, definimos eutanásia como o esforço humano no sentido de apressar a morte própria, ou a de um parente ou de alguém que está em sofrimento. Ela é apresentada pelos defensores como sendo uma extensão dos direitos humanos, no sentido de que cada um deveria ter o direito a decidir sobre a própria vida. O assunto, entretanto, transcende o suposto direito ao suicídio, pois postula o direito de alguém decidir sobre a vida de outro, baseado em uma condição arbitrária e intangível – a existência ou não de qualidade naquela vida a ser terminada.
Quando tratamos de eutanásia, não estamos falando de pena de morte, que é a execução de uma sentença punitiva, retributiva, procedente de um tribunal legalmente estabelecido e seguindo procedimentos uniformes. É verdade que a pena de morte envolve a decisão sobre a vida de outros, mas eutanásia baseia-se na aferição subjetiva da vida que deveria ser terminada, examinando-se se ela perdeu o sentido, a qualidade ou o seu propósito.
Normalmente a maioria dos argumentos, tanto dos oponentes como dos defensores da eutanásia é baseada apenas na experiência e nos relatos de casos:
a. Os proponentes da eutanásia, apresentarão uma experiência após outra de dor, sofrimento, despesas indevidas, que sacrificaram os vivos e sãos, somente para resultar na inevitável morte.
b. Aqueles que se colocam contra a eutanásia, desfilam experiência após outra de casos aparentemente perdidos, de pessoas que se encontravam em extremo sofrimento e que só aguardavam (ansiosamente) a morte, para depois se recuperarem e viverem vidas produtivas e, principalmente, abençoadas para vários com quem mantiveram contato.
Reconhecemos que sensibilidade e entendimento provêm da experiência, mas o cristão tem por dever procurar sua postura ética e firmar a sua reação perante os problemas existenciais que a sociedade lhe aponta, como resultado de um desejo intenso e sincero de conhecer o que a Palavra de Deus fala, indica ou infere sobre o assunto. O que terá a Bíblia a dizer sobre a Eutanásia? Encontramos casos de término abreviado ou induzido da vida, aprovados por Deus? O que terá a Palavra de Deus a nos ensinar sobre esse assunto?
Questões sobre a eutanásia são bastante complexas e não poderiam ser examinadas em todos os detalhes nesse espaço nem respondermos a todas. Gostaríamos, entretanto, de levantar alguns princípios bíblicos que podem nortear a nossa discussão e firmar nossas convicções.
1. A Relevância do Debate sobre a Eutanásia
Eutanásia é um assunto que vem recebendo cada vez mais atenção em todo o mundo. Você sabia que existe uma organização mundial chamada ERGO (Euthanasia Research & Guidance Organization -- Organização de Pesquisa e Direcionamento sobre a Eutanásia), que publica seus anúncios e trabalhos na Internet? Na realidade, existem tantas organizações defensoras da Eutanásia, que elas se estruturaram em uma federação mundial (a World Federation of Right to Die Societies, ou Federação Mundial das Sociedades do Direito à Morte). Nos Estados Unidos, o estado do Oregon promulgou uma legislação que permitia a eutanásia, em 1987, chamado de Ato de Morte com Dignidade. Esta lei foi, posteriormente, em 1994 e 1997, submetida a dois plebiscitos, que a repeliram. Vários estados, dos Estados Unidos, possuem atos legislativos que estão presentemente sendo questionados na Corte Suprema daquele país, equivalente ao nosso Superior Tribunal Federal. Na Austrália, o território do Norte emitiu legislação permitindo a eutanásia, em 1995. Essa lei foi, em 1997, repelida pelo Parlamento Federal Australiano. Em paralelo a tudo isso, provavelmente todos já acompanharam as notícias contemporâneas sobre o trabalho do médico norte-americano, Dr. Jack Kevorkian, inventor da máquina do suicídio, que auxiliou pessoalmente várias pessoas a encontrarem a morte. Este médico, presentemente, responde a vários processos criminais, em função de suas ações em favor da eutanásia.
2. O Valor da Vida.
O humanismo secular reconhece valor à vida, mas atribui a essa uma qualidade que é circunstancial (dependente das circunstâncias). Nesse sentido, a aferição subjetiva da qualidade de vida é determinante no julgamento se esta vida deve ser terminada ou não. A visão bíblica apresenta o valor da vida, como uma questão inerente ao fato de que ela é um dom de Deus. A própria criação da vida humana representa o ápice do trabalho criativo de Deus (Gn 1.26) e é chamado na Bíblia como sendo a "coroa da Criação". Como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus o seu valor não se desvanece.
A visão humanista identifica sofrimento como sendo um fator que diminui essa "qualidade" de vida, chegando a legitimar o término dessa, quer voluntariamente, quer pelo arbítrio ou determinação de outro, como, por exemplo, a de um parente próximo.
A visão bíblica, além de atribuir valor intrínseco à vida, e não circunstancial, possui outra visão do sofrimento. Ela reconhece que sofrimento não é algo desejável e pode diminuir o nosso desfrutar imediato desta vida, numa visão meramente temporal, como registra Paulo em 1 Co 1.8, "...a tribulação que nos sobreveio... foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida". O sofrimento também pode ocorrer como resultado direto do pecado (Tg 4.8-9), mas, em várias ocasiões, ocorre dentro dos propósitos insondáveis de Deus, com a finalidade didática de nos ensinar alguma coisa. Nesse sentido, paradoxalmente, em vez de retirar qualidade da vida, pode adicionar qualidade real. O sofrimento pode fazer com que nos acheguemos e dependamos mais de Deus e capacitar, tanto ao que sofre como aos que dele precisam cuidar, ao aprendizado de lições preciosas para o crescimento conjunto dos fiéis, como ensina 2 Cr 1.3 e 4, que diz: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus". Com essa visão, pensando nos resultados benéficos, podemos até nos gloriar nas tribulações (Rm. 5.3-4).
Paulo também nos escreve que "aprendeu o segredo de estar contente em qualquer e toda situação" (Fl. 4.12). Não podemos confundir o direito de procurar a felicidade (dádiva de Deus aos homens), com o direito inexistente de se obter felicidade (prerrogativa da soberania de Deus). Ou seja, a ausência de felicidade aparente e temporal não diminui a qualidade de vida e não nos dá nenhuma prerrogativa sobre a decisão de vida ou morte, nossa e de outros, como defendem os proponentes da eutanásia.
3. Uma visão errada da morte.
Os proponentes da eutanásia olham a morte como uma "libertação" do sofrimento, mas possuem uma visão distorcida da existência, pois não consideram:
• Que a morte é algo não natural, ou seja, é fruto do pecado e sobrevem ao homem em função da queda (Rm. 5.12).
• Que a morte dos justificados por Deus, pelo trabalho de Cristo Jesus, é "preciosa aos olhos do Senhor" (Sl 116.12) porque por ela já se encontrarão com o seu criador, mas em nenhuma passagem há aprovação para que essa morte seja apressada ou para que a vida seja terminada arbitrariamente, essa morte ocorre no seio da providência divina.
• Que a morte dos ímpios, longe de ser liberação de sofrimento, é o início do sofrimento eterno maior (Hb 9.27 e 10.31).
Qualquer compreensão meramente utilitária da vida e da morte, que não leve em consideração o fator "pecado" e o trabalho de redenção do nosso Senhor Jesus Cristo, não pode ser abraçado ou defendido pelo crente, pois fugirá aos ensinamentos da Palavra de Deus, nossa única regra de fé e de prática.
4. A Eutanásia e o Aborto.
Aqueles que defendem a eutanásia não gostam de classificar o aborto como tal, mas existe muita semelhança, porque o aborto, como está sendo amplamente praticado em vários países do mundo ocidental, é o término de uma vida humana, baseado numa decisão utilitária de outra pessoa. Também diz-se que o feto não possui ainda "qualidade de vida". Podemos ver, assim, a semelhança da argumentação com a defesa da eutanásia. Não é nosso propósito tratar do aborto, mas esse é claramente contrário à palavra de Deus, que se refere ao feto como uma pessoa em vário trechos (ex.: Salmo 51.5; Lucas 1.41).
5. Qual Seria o Padrão Para Determinar o Término da Vida?
Os que defendem o término prematuro da vida dizem que a definição de interrupção da vida não é aleatória, mas segue certas regras pré-estabelecidas. Por elas o julgamento seria exercitado. Mas essas regras, quando examinadas, mostram-se subjetivas e realmente aleatórias. Por exemplo, os defensores do aborto dizem que o padrão de julgamento para sua execução é unicamente a mera vontade da mãe: "a mulher é dona de seu próprio corpo...", dizem e se a gravidez não tiver sido desejada a vida pode ser terminada. Nos abortos chamados de "terapêuticos" os pontos a considerar são a possibilidade de morte da mãe e a possibilidade de problemas físicos ou mentais, do bebê a nascer. É fácil de ver que assim que abrimos portas começamos a atravessar barreiras éticas estabelecidas pela Palavra de Deus e a tomar decisões egoístas, que não nos competem e que fogem à nossa capacidade de conhecimento. Se as definições nesse campo forem meramente práticas podemos, com facilidade, cair no que ocorre na Índia onde o aborto é praticado, ainda que ilegalmente, como base de seleção do sexo da criança. Semelhante definição é encontrada em muitas tribos de índios, que matam o primeiro recém-nascido se for do sexo feminino (a antiga prática da tribo Dâw, no norte do Amazonas, por exemplo, é a de deixar o primeiro recém-nascido, se do sexo feminino, ao relento para morrer por falta de cuidado).
Será que o padrão de término de uma vida pode ser assim subjetivamente estabelecido? Ele poderia ser dependente apenas da cabeça e das conclusões de cada um? Se esse padrão, ou essa maneira de gerarmos padrões, for aceita, o que impedirá de partirmos da eutanásia e aborto voluntário para a eutanásia e aborto imposto? O que impedirá que as pessoas virem vítimas, não apenas de seus próprios pecados e decisões erradas próprias, mas também de políticas populacionais, sociais, ou raciais, estabelecidos por um organismo maior – governamental ou eclesiástico? Vamos passar a defender o aborto obrigatório para diminuir os bolsões de pobreza? Não podemos esquecer o que já aconteceu na história. Na Alemanha Nazista do III Reich havia uma expressão: leibensunwertes Leben – "a vida que não vale a vida". Com esse moto justificou-se o genocídio e a matança de judeus, ciganos e pessoas aleijadas, pois a vida deles não "valia a pena ser vivida". Hoje em dia vemos a nossa sociedade usurpar o lugar de Deus e procurar passar a determinar sobre quem deve ou pode morrer, fugindo totalmente aos padrões estabelecidos por Deus, em Sua Palavra.
6. Alguns Pontos Essenciais a Lembrar.
No meio desse debate, vamos nos lembrar desses seguintes pontos essenciais que nos são ensinados na Bíblia:
a. A vida é uma dádiva preciosa de Deus (Gen 1.20-25).
b. A vida humana é especialmente preciosa, porque Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Devemos portanto preservá-la e não tirá-la (Gen. 1.26 e 9.5-6).
c. A morte não é o fim e nem uma fuga em si ao sofrimento, mas ela é o resultado do pecado (Rom. 6.23).
d. Muitas vezes ela ocorre com sofrimento e dor, nos propósitos insondáveis de Deus, como tribulação e dor podem ocorrer sem relacionamento direto com a morte (2 Cor. 4.8-10).
e. Esse sofrimento nem sempre é uma conseqüência direta do pecado (João 9.3), mas ocorre para que Deus seja glorificado.
f. O destemor da morte é uma característica do servo de Deus (Fil. 1.21).
g. É verdade que servos de Deus muitas vezes expressaram o desejo de morrer antes do tempo apontado por Deus, buscando encontrá-lo (Fil. 1.23), mas submeteram-se à vontade de Deus em suas vidas, sendo o exemplo maior o do nosso Senhor Jesus Cristo (Mat. 26.39).
h. O homem é limitado em sua perspectiva e não pode definir os seus passos pelos resultados que espera (pragmatismo) pois esses não lhe são conhecidos (Mat. 26.29).
Os padrões éticos do crente são encontrados na Palavra de Deus e nela achamos todo o incentivo para valorizarmos a vida e nos empenharmos em preservá-la, suportando as tribulações com paciência e perseverança, para a Glória de Deus.
Conclusão
Como dissemos no início, eutanásia é um assunto complexo e nem todas as questões podem ser respondidas. Nossas experiências variam, mas as Escrituras fornecem uma âncora às decisões individuais que devem ser tomadas com a consciência tranqüila perante Deus. Os princípios são claros e devem ser observados, mas a aplicação específica nem sempre é tão evidente ou fácil. A maioria de nós terá que tomar decisões, cedo ou tarde, sobre o cuidado de nossos amados que podem se achar em situação de prolongado sofrimento. Outros trabalham em hospitais superlotados e mal equipados onde as possibilidades para salvar vidas são limitadas e escolhas são feitas a cada dia – quem deve ser salvo? Qual o caso mais grave? Quem melhor "potencial" de vida? Quem tem "pior qualidade" de vida? Como decidir o que não conhecemos? Podemos até nos encontrar em uma situação na qual seremos participantes involuntários das decisões de outras pessoas de maior autoridade.
É importante sabermos que não nos compete tomar a vida, mas temos, sim, o dever de preservá-la. Temos que nos lembrar que Deus ama aos Seus e está ciente dos seus sofrimentos e das suas dores. Ele pode nos sustentar e nas ocasiões em que tivermos de tomar decisões, vamos buscar a sua presença em oração, e, com a Palavra de Deus na mão, aplicar os Seus princípios.
Presb. Solano Portela
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Aborto: Os dois pontos cruciais O aborto de acordo com a legislação vigente e à luz da Palavra de Deus
Rev. Augustus Nicodemus Lopes
A legislação sobre o assunto
O artigo 128 do Código Penal brasileiro (que é de 1940) permite o aborto quando há risco de vida para a mãe, e quando a gravidez resulta de estupro. Porém, apenas sete hospitais nos pais faziam o aborto legal. Esse ano, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), da Câmara dos Deputados, aprovou a obrigatoriedade do SUS (Sistema Único de Saúde) realizar o aborto nos termos da lei. O projeto, porém, permite ao médico (não ao hospital) recusar-se a fazer o aborto, por razões de consciência – um reconhecimento de que o assunto é polêmico e que envolve mais que procedimentos médicos e mecânicos. Por exemplo, o ministro da Saúde, Carlos Albuquerque, disse ser contrário à lei e comparou aborto a um assassinato. Além disto, médicos podem ter uma resistência natural, pela própria formação deles (obrigação de lutar pela vida). "O juiz que autoriza o aborto é co-autor do crime. Isso fere o direito à vida", disse o desembargador José Geraldo Fonseca, do Tribunal de Justiça de São Paulo, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo (22/09/97). Segundo ele, o artigo 128 do Código Penal não autoriza o aborto nesses casos, mas apenas não prevê pena para quem o pratica. No momento, existem projetos de ampliar a lei, garantindo o aborto também no caso de malformação do feto, com pouca possibilidade de vida após o parto.
O ensino bíblico
O assunto é particularmente agudo para os cristãos comprometidos com a Palavra de Deus. É verdade que não há um preceito legal na Bíblia proibindo diretamente o aborto, como "Não abortarás". Mas a razão é clara. Era tão inconcebível que uma mulher israelita desejasse um aborto que não havia necessidade de proibi-lo explicitamente na lei de Moisés. Crianças eram consideradas como um presente ou herança de Deus (Gn 33.5; Sl 113.9; 127.3). Era Deus quem abria a madre e permitia a gravidez (Gn 29.33; 30.22; 1 Sm. 1.19-20). Não ter filhos era considerado uma maldição, já que o nome de família do marido não poderia ser perpetuado (Dt 25.6; Rt 4.5). O aborto era algo tão contrário à mentalidade israelita que bastava um mandamento genérico, "Não matarás" (Êx 20.13). Mas os tempos mudaram. A sociedade ocidental moderna vê filhos como empecilho à concretização do sonho de realização pessoal do casal, da mulher em especial, de ter uma boa posição financeira, de aproveitar a vida, de ter lazer, e de trabalhar. A Igreja, entretanto, deve guiar-se pela Palavra de Deus, e não pela ética da sociedade onde está inserida.
A humanidade do feto
Há dois pontos cruciais em torno dos quais gira as questões éticas e morais relacionadas com o aborto provocado. O primeiro é quanto à humanidade do feto. Esse ponto tem a ver com a resposta à pergunta: quando é que, no processo de concepção, gestação e nascimento, o embrião se torna um ser humano, uma pessoa, adquirindo assim o direito à vida? Muitos que são a favor do aborto argumentam que o embrião (e depois o feto), só se torna um ser humano depois de determinado período de gestação, antes do qual abortar não seria assassinato. Por exemplo, o aborto é permitido na Inglaterra até 7 meses de gestação. Outros são mais radicais. Em 1973 a Suprema Corte dos Estados Unidos passou uma lei permitindo o aborto, argumentando que uma criança não nascida não é uma pessoa no sentido pleno do termo, e, portanto, não tem direito constitucional à vida, liberdade e propriedades. Entretanto, muitos biólogos, geneticistas e médicos concordam que a vida biológica inicia-se desde a concepção. As Escrituras confirmam este conceito ensinando que Deus considera sagrada vida de crianças não nascidas. Veja, por exemplo, Êx 4.11; 21.21-25; Jó 10.8-12; Sl 139.13-16; Jr. 1.5; Mt 1.18; e Lc 1.39-44. Apesar de algumas dessas passagens terem pontos de difícil interpretação, não é difícil de ver que a Bíblia ensina que o corpo, a vida e as faculdades morais do homem se originam simultaneamente na concepção.
Os Pais da Igreja, que vieram logo após os apóstolos, reconheceram esta verdade, como aparece claramente nos escritos de Tertuliano, Jerônimo, Agostinho, Clemente de Alexandria e outros. No Império Romano pagão, o aborto era praticado livremente, mas os cristãos se posicionaram contra a prática. Em 314 o concílio de Ancira (moderna Ankara) decretou que deveriam ser excluídos da ceia do Senhor durante 10 anos todos os que procurassem provocar o aborto ou fizesse drogas para provocá-lo. Anteriormente, o sínodo de Elvira (305-306) havia excluído até a morte os que praticassem tais coisas. Assim, a evidência biológica e bíblica é que crianças não nascidas são seres humanos, são pessoas, e que matá-las é assassinato.
A santidade da vida
O segundo ponto tem a ver com a santidade da vida. Ainda que as crianças fossem reconhecidas como seres humanos, como pessoas, antes de nascer, ainda assim, suas vidas estariam ameaçadas pelo aborto. Vivemos em uma sociedade que perdeu o conceito da santidade da vida. O conceito bíblico de que o homem é uma criatura especial, feita à imagem de Deus, diferente de todas as demais formas de vida, e que possui uma alma imortal, tem sido substituído pelo conceito humanista do evolucionismo, que vê o homem simplesmente como uma espécie a mais, o Homo sapiens, sem nada que realmente o faça distinto das demais espécies. A vida humana perdeu seu valor. O direito para continuar existindo não é mais determinado pelo alto valor que se dava ao homem por ser feito à imagem de Deus, mas por fatores financeiros, sociológicos e de conveniência pessoal, geralmente, utilitarista e egoísta. Em São Paulo, por exemplo, um médico declarou "Faço aborto com o mesmo respeito com que faço uma cesárea. É um procedimento tão ético como uma cauterização". E perguntado se faria aborto em sua filha, respondeu: "Faria, se ela considerasse a gravidez inoportuna por algum motivo. Eu mesmo já fiz sete abortos de namoradas minhas que não podiam sustentar a gravidez" (A Folha de São Paulo, 29 de agosto de 1997).
Conclusão
Esses pontos devem ser encarados por todos os cristãos. Evidentemente, existem situações complexas e difíceis, como no caso da gravidez de risco e do estupro. Meu ponto é que as soluções sempre devem ser a favor da vida. C. Everett Koop, ex-cirurgião geral dos Estados Unidos, escreveu: "Nos meus 36 anos de cirurgia pediátrica, nunca vi um caso em que o aborto fosse a única saída para que a mãe sobrevivesse". Sua prática nestes casos raros era provocar o nascimento prematuro da criança e dar todas as condições para sua sobrevivência. Ao mesmo tempo, é preciso que a Igreja se compadeça e auxilie os cristãos que se vêem diante deste terrível dilema. Condenação não irá substituir orientação, apoio e acompanhamento. A dor, a revolta e o sofrimento de quem foi estuprada não se resolverá matando o ser humano concebido em seu ventre. Por outro lado, a Igreja não pode simplesmente abandonar à sua sorte as estupradas grávidas que resolvem ter a criança. É preciso apoio, acompanhamento e orientação.
A legislação sobre o assunto
O artigo 128 do Código Penal brasileiro (que é de 1940) permite o aborto quando há risco de vida para a mãe, e quando a gravidez resulta de estupro. Porém, apenas sete hospitais nos pais faziam o aborto legal. Esse ano, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), da Câmara dos Deputados, aprovou a obrigatoriedade do SUS (Sistema Único de Saúde) realizar o aborto nos termos da lei. O projeto, porém, permite ao médico (não ao hospital) recusar-se a fazer o aborto, por razões de consciência – um reconhecimento de que o assunto é polêmico e que envolve mais que procedimentos médicos e mecânicos. Por exemplo, o ministro da Saúde, Carlos Albuquerque, disse ser contrário à lei e comparou aborto a um assassinato. Além disto, médicos podem ter uma resistência natural, pela própria formação deles (obrigação de lutar pela vida). "O juiz que autoriza o aborto é co-autor do crime. Isso fere o direito à vida", disse o desembargador José Geraldo Fonseca, do Tribunal de Justiça de São Paulo, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo (22/09/97). Segundo ele, o artigo 128 do Código Penal não autoriza o aborto nesses casos, mas apenas não prevê pena para quem o pratica. No momento, existem projetos de ampliar a lei, garantindo o aborto também no caso de malformação do feto, com pouca possibilidade de vida após o parto.
O ensino bíblico
O assunto é particularmente agudo para os cristãos comprometidos com a Palavra de Deus. É verdade que não há um preceito legal na Bíblia proibindo diretamente o aborto, como "Não abortarás". Mas a razão é clara. Era tão inconcebível que uma mulher israelita desejasse um aborto que não havia necessidade de proibi-lo explicitamente na lei de Moisés. Crianças eram consideradas como um presente ou herança de Deus (Gn 33.5; Sl 113.9; 127.3). Era Deus quem abria a madre e permitia a gravidez (Gn 29.33; 30.22; 1 Sm. 1.19-20). Não ter filhos era considerado uma maldição, já que o nome de família do marido não poderia ser perpetuado (Dt 25.6; Rt 4.5). O aborto era algo tão contrário à mentalidade israelita que bastava um mandamento genérico, "Não matarás" (Êx 20.13). Mas os tempos mudaram. A sociedade ocidental moderna vê filhos como empecilho à concretização do sonho de realização pessoal do casal, da mulher em especial, de ter uma boa posição financeira, de aproveitar a vida, de ter lazer, e de trabalhar. A Igreja, entretanto, deve guiar-se pela Palavra de Deus, e não pela ética da sociedade onde está inserida.
A humanidade do feto
Há dois pontos cruciais em torno dos quais gira as questões éticas e morais relacionadas com o aborto provocado. O primeiro é quanto à humanidade do feto. Esse ponto tem a ver com a resposta à pergunta: quando é que, no processo de concepção, gestação e nascimento, o embrião se torna um ser humano, uma pessoa, adquirindo assim o direito à vida? Muitos que são a favor do aborto argumentam que o embrião (e depois o feto), só se torna um ser humano depois de determinado período de gestação, antes do qual abortar não seria assassinato. Por exemplo, o aborto é permitido na Inglaterra até 7 meses de gestação. Outros são mais radicais. Em 1973 a Suprema Corte dos Estados Unidos passou uma lei permitindo o aborto, argumentando que uma criança não nascida não é uma pessoa no sentido pleno do termo, e, portanto, não tem direito constitucional à vida, liberdade e propriedades. Entretanto, muitos biólogos, geneticistas e médicos concordam que a vida biológica inicia-se desde a concepção. As Escrituras confirmam este conceito ensinando que Deus considera sagrada vida de crianças não nascidas. Veja, por exemplo, Êx 4.11; 21.21-25; Jó 10.8-12; Sl 139.13-16; Jr. 1.5; Mt 1.18; e Lc 1.39-44. Apesar de algumas dessas passagens terem pontos de difícil interpretação, não é difícil de ver que a Bíblia ensina que o corpo, a vida e as faculdades morais do homem se originam simultaneamente na concepção.
Os Pais da Igreja, que vieram logo após os apóstolos, reconheceram esta verdade, como aparece claramente nos escritos de Tertuliano, Jerônimo, Agostinho, Clemente de Alexandria e outros. No Império Romano pagão, o aborto era praticado livremente, mas os cristãos se posicionaram contra a prática. Em 314 o concílio de Ancira (moderna Ankara) decretou que deveriam ser excluídos da ceia do Senhor durante 10 anos todos os que procurassem provocar o aborto ou fizesse drogas para provocá-lo. Anteriormente, o sínodo de Elvira (305-306) havia excluído até a morte os que praticassem tais coisas. Assim, a evidência biológica e bíblica é que crianças não nascidas são seres humanos, são pessoas, e que matá-las é assassinato.
A santidade da vida
O segundo ponto tem a ver com a santidade da vida. Ainda que as crianças fossem reconhecidas como seres humanos, como pessoas, antes de nascer, ainda assim, suas vidas estariam ameaçadas pelo aborto. Vivemos em uma sociedade que perdeu o conceito da santidade da vida. O conceito bíblico de que o homem é uma criatura especial, feita à imagem de Deus, diferente de todas as demais formas de vida, e que possui uma alma imortal, tem sido substituído pelo conceito humanista do evolucionismo, que vê o homem simplesmente como uma espécie a mais, o Homo sapiens, sem nada que realmente o faça distinto das demais espécies. A vida humana perdeu seu valor. O direito para continuar existindo não é mais determinado pelo alto valor que se dava ao homem por ser feito à imagem de Deus, mas por fatores financeiros, sociológicos e de conveniência pessoal, geralmente, utilitarista e egoísta. Em São Paulo, por exemplo, um médico declarou "Faço aborto com o mesmo respeito com que faço uma cesárea. É um procedimento tão ético como uma cauterização". E perguntado se faria aborto em sua filha, respondeu: "Faria, se ela considerasse a gravidez inoportuna por algum motivo. Eu mesmo já fiz sete abortos de namoradas minhas que não podiam sustentar a gravidez" (A Folha de São Paulo, 29 de agosto de 1997).
Conclusão
Esses pontos devem ser encarados por todos os cristãos. Evidentemente, existem situações complexas e difíceis, como no caso da gravidez de risco e do estupro. Meu ponto é que as soluções sempre devem ser a favor da vida. C. Everett Koop, ex-cirurgião geral dos Estados Unidos, escreveu: "Nos meus 36 anos de cirurgia pediátrica, nunca vi um caso em que o aborto fosse a única saída para que a mãe sobrevivesse". Sua prática nestes casos raros era provocar o nascimento prematuro da criança e dar todas as condições para sua sobrevivência. Ao mesmo tempo, é preciso que a Igreja se compadeça e auxilie os cristãos que se vêem diante deste terrível dilema. Condenação não irá substituir orientação, apoio e acompanhamento. A dor, a revolta e o sofrimento de quem foi estuprada não se resolverá matando o ser humano concebido em seu ventre. Por outro lado, a Igreja não pode simplesmente abandonar à sua sorte as estupradas grávidas que resolvem ter a criança. É preciso apoio, acompanhamento e orientação.
O que é graça?
Por: Rev. Alcindo Almeida
"Pela graça (pelo favor imerecido por parte de Deus) fostes salvos, por meio da fé. e isso não vem de vós, é dom de Deus: não vem das obras (ou merecimentos) para que ninguém se glorie (se encha de orgulho). Pois somos criaturas dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras que Deus já antes tinha preparado para que nelas andássemos". (Ef. 2: 8, 9)
Deus tem uma aliança conosco. Aliança que jamais é rompida, anulada, terminada. Mesmo que nós falhemos para com Deus no cumprimento dela, ele não acaba. Sabem porquê? Por causa de uma palavra chamada de graça. Mas, o que é graça?
Graça pode ser definida "como o favor eterno e totalmente gratuito de Deus manifestado na concessão de bênçãos espirituais e ternas às criaturas culpadas e indignas. A graça é a concessão de favores a quem não tem mérito próprio, e pelos quais não se exige compensação alguma da parte do homem". Graça é Deus dar ao pecador aquilo que ele não merece, ou seja, a salvação. Graça é favor imerecido dado por Deus. Quando Deus é bondoso, ele revela a sua bondade que chamamos de graça. Não podemos esquecer de que esta graça só é dada para aqueles que Deus amou de maneira especial. Ela não é manifestada a humanidade toda no sentido de salvação. Ela é somente para os escolhidos de Deus.
É exatamente por causa desta graça especial que Deus não rompe conosco, não cessa a sua aliança. Esta graça que é eterna foi idealizada antes de ser manifesta aos homens. Ela foi proposta antes de ser comunicada a eles (II Tm. 1:9). Esta graça que é soberana, que reina, por isso encontramos o texto de Hb. 4:16 " o trono da graça" é dada para que sejamos escolhidos por Deus (Rom. 11:5-6); para que sejamos regenerados (Gl. 1:6; I Pe. 3:7); para que sejamos santificados ( I Pe. 5:10); para que entremos na glória de Deus ( I Pe. 5:10); para que sejamos edificados pela Palavra de Deus (Atos 14:3; 20:32); para que recebamos consolação e socorro ( II Ts. 2:16-7; Hb. 4:16). E para que por fim nós glorifiquemos ao Senhor Jesus (II Ts. 1:12).
Esta graça abundante de Deus, deve nos levar a uma vida mais próxima, a uma vida mais comprometida com ele. A uma vida de maior louvor por sua bondade em nos salvar sem haver absolutamente nenhum mérito em nós. Louvado seja o nome do Senhor por esta graça tão especial em nossa vida !
"Pela graça (pelo favor imerecido por parte de Deus) fostes salvos, por meio da fé. e isso não vem de vós, é dom de Deus: não vem das obras (ou merecimentos) para que ninguém se glorie (se encha de orgulho). Pois somos criaturas dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras que Deus já antes tinha preparado para que nelas andássemos". (Ef. 2: 8, 9)
Deus tem uma aliança conosco. Aliança que jamais é rompida, anulada, terminada. Mesmo que nós falhemos para com Deus no cumprimento dela, ele não acaba. Sabem porquê? Por causa de uma palavra chamada de graça. Mas, o que é graça?
Graça pode ser definida "como o favor eterno e totalmente gratuito de Deus manifestado na concessão de bênçãos espirituais e ternas às criaturas culpadas e indignas. A graça é a concessão de favores a quem não tem mérito próprio, e pelos quais não se exige compensação alguma da parte do homem". Graça é Deus dar ao pecador aquilo que ele não merece, ou seja, a salvação. Graça é favor imerecido dado por Deus. Quando Deus é bondoso, ele revela a sua bondade que chamamos de graça. Não podemos esquecer de que esta graça só é dada para aqueles que Deus amou de maneira especial. Ela não é manifestada a humanidade toda no sentido de salvação. Ela é somente para os escolhidos de Deus.
É exatamente por causa desta graça especial que Deus não rompe conosco, não cessa a sua aliança. Esta graça que é eterna foi idealizada antes de ser manifesta aos homens. Ela foi proposta antes de ser comunicada a eles (II Tm. 1:9). Esta graça que é soberana, que reina, por isso encontramos o texto de Hb. 4:16 " o trono da graça" é dada para que sejamos escolhidos por Deus (Rom. 11:5-6); para que sejamos regenerados (Gl. 1:6; I Pe. 3:7); para que sejamos santificados ( I Pe. 5:10); para que entremos na glória de Deus ( I Pe. 5:10); para que sejamos edificados pela Palavra de Deus (Atos 14:3; 20:32); para que recebamos consolação e socorro ( II Ts. 2:16-7; Hb. 4:16). E para que por fim nós glorifiquemos ao Senhor Jesus (II Ts. 1:12).
Esta graça abundante de Deus, deve nos levar a uma vida mais próxima, a uma vida mais comprometida com ele. A uma vida de maior louvor por sua bondade em nos salvar sem haver absolutamente nenhum mérito em nós. Louvado seja o nome do Senhor por esta graça tão especial em nossa vida !
domingo, 17 de janeiro de 2010
O Verdadeiro e o Falso Arrependimento
Visto que o apóstolo afirmou que o falso arrependimento não apazigua a Deus, surge a pergunta: como Acabe obteve o perdão e removeu o julgamento imposto sobre si? Se julgarmos pelos últimos atos de sua vida, ele parecia ter sido comovido apenas por algum temor repentino (1 Rs 21.28-29). Na verdade, Acabe vestiu-se de pano de saco, pôs cinzas sobre si mesmo e andava cabisbaixo (1 Rs 21.27); e, conforme dizem as Escrituras, ele humilhou-se diante de Deus. No entanto, rasgar as vestes, enquanto seu coração permanecia obstinado e mergulhado na malícia, significava pouco. Apesar disso, observamos como Deus exerceu misericórdia.
Eu respondo: os hipócritas, às vezes, são poupados por um pouco. A ira de Deus, porém, sempre permanece sobre eles. Isto acontece mais por causa do exemplo que eles se tornarão para outros do que pelo bem deles mesmos. Ainda que Acabe teve sua punição mitigada, que proveito isso lhe trouxe,visto que não sentiu qualquer benefício dessa mitigação, exceto enquanto estava vivo? Portanto, a maldição de Deus, embora secreta, havia se fixado sobre a residência de Acabe, que foi para a eterna condenação.
Este mesmo fato pode ser visto em Esaú, pois, embora ele tenha sofrido uma rejeição, uma bênção temporal foi assegurada às suas lágrimas (Gn 27.40). No entanto, visto que a herança espiritual resultante da profecia divina poderia ser possuída por apenas um dos irmãos, quando Esaú foi deixado de lado e Jacó, escolhido, a rejeição de Esaú como herdeiro excluiu a misericórdia de Deus. Mas a consolação de Jacó — fartar-se da exuberância da terra e do orvalho do céu (Gn 27.28) — fez Esaú tornar-se um homem selvagem.
Isto que acabei de afirmar tem de ser aplicado como exemplo para outras pessoas, a fim de que aprendamos mais rapidamente a dedicar nossas mentes e nossos esforços em favor do arrependimento verdadeiro; pois não pode haver dúvida de que, quando somos verdadeira e sinceramente convertidos, Deus, que estende sua misericórdia sobre os indignos (quando estes manifestam insatisfação com seu próprio “eu”), nos perdoará prontamente. Deste modo, também somos ensinados que julgamento terrível está acumulado para todos os obstinados, que, com descarada altivez e um coração petrificado, se divertem em desprezar e reduzir a nada as ameaças de Deus. Assim mesmo, Deus freqüentemente estendia sua mão aos filhos de Israel, para livrá-los de sua calamidade, embora os seus clamores fossem fingidos e seus corações, enganosos e falsos (cf. Sl 78.36-37); pois Deus mesmo reclamou, neste salmo, que eles sem demora reverteram o seu próprio caráter (v. 57). Porém, apesar disso, Deus, por meio de gentileza amável, quis trazê-los à conversão sincera e torná-los sem culpa. Ao suspender a punição por um tempo, Deus não fica obrigado por uma lei perpétua. Ao contrário, às vezes, Ele levanta o castigo ainda com mais severidade contra os hipócritas e duvidosos, para demonstrar quanto Lhe desagrada a presunção deles. Mas, conforme já dissemos, Deus apresenta alguns exemplos de sua prontidão em perdoar, e, mediante este perdão, os ímpios podem ser encorajados a restaurar suas vidas; enquanto o orgulho daqueles que obstinadamente Lhe resistem pode ser severamente condenado.
João Calvino
Eu respondo: os hipócritas, às vezes, são poupados por um pouco. A ira de Deus, porém, sempre permanece sobre eles. Isto acontece mais por causa do exemplo que eles se tornarão para outros do que pelo bem deles mesmos. Ainda que Acabe teve sua punição mitigada, que proveito isso lhe trouxe,visto que não sentiu qualquer benefício dessa mitigação, exceto enquanto estava vivo? Portanto, a maldição de Deus, embora secreta, havia se fixado sobre a residência de Acabe, que foi para a eterna condenação.
Este mesmo fato pode ser visto em Esaú, pois, embora ele tenha sofrido uma rejeição, uma bênção temporal foi assegurada às suas lágrimas (Gn 27.40). No entanto, visto que a herança espiritual resultante da profecia divina poderia ser possuída por apenas um dos irmãos, quando Esaú foi deixado de lado e Jacó, escolhido, a rejeição de Esaú como herdeiro excluiu a misericórdia de Deus. Mas a consolação de Jacó — fartar-se da exuberância da terra e do orvalho do céu (Gn 27.28) — fez Esaú tornar-se um homem selvagem.
Isto que acabei de afirmar tem de ser aplicado como exemplo para outras pessoas, a fim de que aprendamos mais rapidamente a dedicar nossas mentes e nossos esforços em favor do arrependimento verdadeiro; pois não pode haver dúvida de que, quando somos verdadeira e sinceramente convertidos, Deus, que estende sua misericórdia sobre os indignos (quando estes manifestam insatisfação com seu próprio “eu”), nos perdoará prontamente. Deste modo, também somos ensinados que julgamento terrível está acumulado para todos os obstinados, que, com descarada altivez e um coração petrificado, se divertem em desprezar e reduzir a nada as ameaças de Deus. Assim mesmo, Deus freqüentemente estendia sua mão aos filhos de Israel, para livrá-los de sua calamidade, embora os seus clamores fossem fingidos e seus corações, enganosos e falsos (cf. Sl 78.36-37); pois Deus mesmo reclamou, neste salmo, que eles sem demora reverteram o seu próprio caráter (v. 57). Porém, apesar disso, Deus, por meio de gentileza amável, quis trazê-los à conversão sincera e torná-los sem culpa. Ao suspender a punição por um tempo, Deus não fica obrigado por uma lei perpétua. Ao contrário, às vezes, Ele levanta o castigo ainda com mais severidade contra os hipócritas e duvidosos, para demonstrar quanto Lhe desagrada a presunção deles. Mas, conforme já dissemos, Deus apresenta alguns exemplos de sua prontidão em perdoar, e, mediante este perdão, os ímpios podem ser encorajados a restaurar suas vidas; enquanto o orgulho daqueles que obstinadamente Lhe resistem pode ser severamente condenado.
João Calvino
sábado, 9 de janeiro de 2010
Refúgio Divino
Os filhos de Israel, enquanto estiveram no Egito e peregrinaram pelo deserto, eram uma figura visível da igreja de Deus na terra. Nessa passagem, Moisés estava falando, primariamente, sobre eles, todavia, em segundo plano, se referiu a todos os eleitos de Deus, em todas as épocas. Ora, assim como Deus era a habitação de seu povo de Israel, Ele tem sido o refúgio de todos os seus santos durante todos os séculos. Deus era a habitação de Israel especialmente quando eles estavam em escravidão e seu jugo era pesado. Quando eles tiveram de fazer tijolos sem receberem palha, e os superintendentes de Faraó os oprimiram, eles clamaram ao Senhor. Deus ouviu o clamor dos filhos de Israel e enviou-lhes seu servo Moisés.
De maneira semelhante, freqüentemente nos surgem épocas quando começamos a nos sentir oprimidos por Satanás. Creio que muitos crentes piedosos sentem a escravidão resultante da posição que ocupam. Mesmo alguns daqueles que nunca se converteram ao Senhor têm bastante sensibilidade para reconhecer que, às vezes, o serviço a Satanás é muito árduo, produz pouquíssima satisfação e envolve riscos terríveis. Alguns homens não podem fazer tijolos sem palha, por muito tempo, e não se tornarem relativamente conscientes de que estão em uma casa de servidão. Esses, que não fazem parte do povo de Deus, encontrando-se sob a pressão mental resultante da descoberta parcial de seu estado, voltam-se para algum tipo de justiça própria ou de prazer, a fim de esquecerem seu fardo e seu jugo.
No entanto, o povo eleito de Deus, movido por um poder superior, foi levado a clamar ao seu Deus. Este é um dos primeiros sinais de uma alma eleita: ela parece saber, por meio de um instinto divino, onde se encontra o verdadeiro refúgio. Você
recorda que, embora soubesse pouco a respeito de Cristo, tivesse pouca compreensão dos assuntos doutrinários e não entendesse a sua necessidade, alguma coisa o permitiu
ver que somente no trono de misericórdia você poderia encontrar refúgio.
Antes de tornar-se um crente, seu leito testemunhou muitas lágrimas, quando seu coração magoado se derramava diante de Deus, em palavras assim: “Ó Deus, eu quero alguma coisa. Não sei o que eu desejo, mas sinto uma opressão de espírito. Minha mente está sobrecarregada e percebo que somente o Senhor pode me dar alívio. Reconheço que sou um pecador. Oh! perdoa-me! Não entendo bem o plano de salvação, mas eu sei que desejo ser salvo. Eu me levanto e vou ter com meu Pai. Meu coração anela tornar-Te o meu refúgio”. Digo que esta é uma das primeiras indicações de que essa pessoa é um dos eleitos de Deus. É verdade que, assim como aconteceu com o povo de Israel no Egito, Deus é o refúgio de seu povo, mesmo quando eles estão sob opressão.
Quando termina o cativeiro, Deus se torna o lugar para que seu povo se refugie de seus pecados. Os israelitas foram tirados do Egito. Eles ficaram livres. Os israelitas não sabiam para onde estavam marchando, mas as algemas haviam sido despedaçadas. Eles foram emancipados e não precisavam mais chamar ninguém de “Senhor”. Porém, vejam, Faraó ficou irado e os perseguiu. Com
seus cavalos e seus carros, ele saiu apressadamente atrás dos israelitas. O inimigo disse: “Perseguirei, alcançarei, repartirei os despojos; a minha alma se fartará deles” (Êxodo 15.9).
De maneira semelhante, existem épocas da vida espiritual em que o pecado se esforça para reconquistar o pecador recém-libertado de suas garras. Assim como exércitos preparados para a batalha, todo o passado de iniqüidades do pecador corre atrás dele e o vence em um lugar onde seu caminho está cercado. O pobre fugitivo deseja escapar, mas não pode. Então, o que ele deve fazer? Lembre-se que, naquelas circunstâncias, Moisés clamou ao Senhor. Quando nada poderia oferecer refúgio aos pobres fugitivos, quando o mar Vermelho rugia diante deles e as montanhas os encerravam, em ambos os lados, e um inimigo furioso os perseguia, havia um caminho que não estava obstruído. Era o caminho do trono do Rei celestial, o caminho do Deus dos israelitas. Por isso, eles começaram imediatamente a andar por esse caminho, erguendo seus corações em humilde oração a Deus, crendo que Ele os livraria. Você conhece a história: como o
Charles Haddon Spurgeon
De maneira semelhante, freqüentemente nos surgem épocas quando começamos a nos sentir oprimidos por Satanás. Creio que muitos crentes piedosos sentem a escravidão resultante da posição que ocupam. Mesmo alguns daqueles que nunca se converteram ao Senhor têm bastante sensibilidade para reconhecer que, às vezes, o serviço a Satanás é muito árduo, produz pouquíssima satisfação e envolve riscos terríveis. Alguns homens não podem fazer tijolos sem palha, por muito tempo, e não se tornarem relativamente conscientes de que estão em uma casa de servidão. Esses, que não fazem parte do povo de Deus, encontrando-se sob a pressão mental resultante da descoberta parcial de seu estado, voltam-se para algum tipo de justiça própria ou de prazer, a fim de esquecerem seu fardo e seu jugo.
No entanto, o povo eleito de Deus, movido por um poder superior, foi levado a clamar ao seu Deus. Este é um dos primeiros sinais de uma alma eleita: ela parece saber, por meio de um instinto divino, onde se encontra o verdadeiro refúgio. Você
recorda que, embora soubesse pouco a respeito de Cristo, tivesse pouca compreensão dos assuntos doutrinários e não entendesse a sua necessidade, alguma coisa o permitiu
ver que somente no trono de misericórdia você poderia encontrar refúgio.
Antes de tornar-se um crente, seu leito testemunhou muitas lágrimas, quando seu coração magoado se derramava diante de Deus, em palavras assim: “Ó Deus, eu quero alguma coisa. Não sei o que eu desejo, mas sinto uma opressão de espírito. Minha mente está sobrecarregada e percebo que somente o Senhor pode me dar alívio. Reconheço que sou um pecador. Oh! perdoa-me! Não entendo bem o plano de salvação, mas eu sei que desejo ser salvo. Eu me levanto e vou ter com meu Pai. Meu coração anela tornar-Te o meu refúgio”. Digo que esta é uma das primeiras indicações de que essa pessoa é um dos eleitos de Deus. É verdade que, assim como aconteceu com o povo de Israel no Egito, Deus é o refúgio de seu povo, mesmo quando eles estão sob opressão.
Quando termina o cativeiro, Deus se torna o lugar para que seu povo se refugie de seus pecados. Os israelitas foram tirados do Egito. Eles ficaram livres. Os israelitas não sabiam para onde estavam marchando, mas as algemas haviam sido despedaçadas. Eles foram emancipados e não precisavam mais chamar ninguém de “Senhor”. Porém, vejam, Faraó ficou irado e os perseguiu. Com
seus cavalos e seus carros, ele saiu apressadamente atrás dos israelitas. O inimigo disse: “Perseguirei, alcançarei, repartirei os despojos; a minha alma se fartará deles” (Êxodo 15.9).
De maneira semelhante, existem épocas da vida espiritual em que o pecado se esforça para reconquistar o pecador recém-libertado de suas garras. Assim como exércitos preparados para a batalha, todo o passado de iniqüidades do pecador corre atrás dele e o vence em um lugar onde seu caminho está cercado. O pobre fugitivo deseja escapar, mas não pode. Então, o que ele deve fazer? Lembre-se que, naquelas circunstâncias, Moisés clamou ao Senhor. Quando nada poderia oferecer refúgio aos pobres fugitivos, quando o mar Vermelho rugia diante deles e as montanhas os encerravam, em ambos os lados, e um inimigo furioso os perseguia, havia um caminho que não estava obstruído. Era o caminho do trono do Rei celestial, o caminho do Deus dos israelitas. Por isso, eles começaram imediatamente a andar por esse caminho, erguendo seus corações em humilde oração a Deus, crendo que Ele os livraria. Você conhece a história: como o
Charles Haddon Spurgeon
Subscrever:
Mensagens (Atom)