domingo, 17 de janeiro de 2010

O Verdadeiro e o Falso Arrependimento

Visto que o apóstolo afirmou que o falso arrependimento não apazigua a Deus, surge a pergunta: como Acabe obteve o perdão e removeu o julgamento imposto sobre si? Se julgarmos pelos últimos atos de sua vida, ele parecia ter sido comovido apenas por algum temor repentino (1 Rs 21.28-29). Na verdade, Acabe vestiu-se de pano de saco, pôs cinzas sobre si mesmo e andava cabisbaixo (1 Rs 21.27); e, conforme dizem as Escrituras, ele humilhou-se diante de Deus. No entanto, rasgar as vestes, enquanto seu coração permanecia obstinado e mergulhado na malícia, significava pouco. Apesar disso, observamos como Deus exerceu misericórdia.

Eu respondo: os hipócritas, às vezes, são poupados por um pouco. A ira de Deus, porém, sempre permanece sobre eles. Isto acontece mais por causa do exemplo que eles se tornarão para outros do que pelo bem deles mesmos. Ainda que Acabe teve sua punição mitigada, que proveito isso lhe trouxe,visto que não sentiu qualquer benefício dessa mitigação, exceto enquanto estava vivo? Portanto, a maldição de Deus, embora secreta, havia se fixado sobre a residência de Acabe, que foi para a eterna condenação.

Este mesmo fato pode ser visto em Esaú, pois, embora ele tenha sofrido uma rejeição, uma bênção temporal foi assegurada às suas lágrimas (Gn 27.40). No entanto, visto que a herança espiritual resultante da profecia divina poderia ser possuída por apenas um dos irmãos, quando Esaú foi deixado de lado e Jacó, escolhido, a rejeição de Esaú como herdeiro excluiu a misericórdia de Deus. Mas a consolação de Jacó — fartar-se da exuberância da terra e do orvalho do céu (Gn 27.28) — fez Esaú tornar-se um homem selvagem.

Isto que acabei de afirmar tem de ser aplicado como exemplo para outras pessoas, a fim de que aprendamos mais rapidamente a dedicar nossas mentes e nossos esforços em favor do arrependimento verdadeiro; pois não pode haver dúvida de que, quando somos verdadeira e sinceramente convertidos, Deus, que estende sua misericórdia sobre os indignos (quando estes manifestam insatisfação com seu próprio “eu”), nos perdoará prontamente. Deste modo, também somos ensinados que julgamento terrível está acumulado para todos os obstinados, que, com descarada altivez e um coração petrificado, se divertem em desprezar e reduzir a nada as ameaças de Deus. Assim mesmo, Deus freqüentemente estendia sua mão aos filhos de Israel, para livrá-los de sua calamidade, embora os seus clamores fossem fingidos e seus corações, enganosos e falsos (cf. Sl 78.36-37); pois Deus mesmo reclamou, neste salmo, que eles sem demora reverteram o seu próprio caráter (v. 57). Porém, apesar disso, Deus, por meio de gentileza amável, quis trazê-los à conversão sincera e torná-los sem culpa. Ao suspender a punição por um tempo, Deus não fica obrigado por uma lei perpétua. Ao contrário, às vezes, Ele levanta o castigo ainda com mais severidade contra os hipócritas e duvidosos, para demonstrar quanto Lhe desagrada a presunção deles. Mas, conforme já dissemos, Deus apresenta alguns exemplos de sua prontidão em perdoar, e, mediante este perdão, os ímpios podem ser encorajados a restaurar suas vidas; enquanto o orgulho daqueles que obstinadamente Lhe resistem pode ser severamente condenado.
João Calvino

sábado, 9 de janeiro de 2010

Refúgio Divino

Os filhos de Israel, enquanto estiveram no Egito e peregrinaram pelo deserto, eram uma figura visível da igreja de Deus na terra. Nessa passagem, Moisés estava falando, primariamente, sobre eles, todavia, em segundo plano, se referiu a todos os eleitos de Deus, em todas as épocas. Ora, assim como Deus era a habitação de seu povo de Israel, Ele tem sido o refúgio de todos os seus santos durante todos os séculos. Deus era a habitação de Israel especialmente quando eles estavam em escravidão e seu jugo era pesado. Quando eles tiveram de fazer tijolos sem receberem palha, e os superintendentes de Faraó os oprimiram, eles clamaram ao Senhor. Deus ouviu o clamor dos filhos de Israel e enviou-lhes seu servo Moisés.

De maneira semelhante, freqüentemente nos surgem épocas quando começamos a nos sentir oprimidos por Satanás. Creio que muitos crentes piedosos sentem a escravidão resultante da posição que ocupam. Mesmo alguns daqueles que nunca se converteram ao Senhor têm bastante sensibilidade para reconhecer que, às vezes, o serviço a Satanás é muito árduo, produz pouquíssima satisfação e envolve riscos terríveis. Alguns homens não podem fazer tijolos sem palha, por muito tempo, e não se tornarem relativamente conscientes de que estão em uma casa de servidão. Esses, que não fazem parte do povo de Deus, encontrando-se sob a pressão mental resultante da descoberta parcial de seu estado, voltam-se para algum tipo de justiça própria ou de prazer, a fim de esquecerem seu fardo e seu jugo.

No entanto, o povo eleito de Deus, movido por um poder superior, foi levado a clamar ao seu Deus. Este é um dos primeiros sinais de uma alma eleita: ela parece saber, por meio de um instinto divino, onde se encontra o verdadeiro refúgio. Você

recorda que, embora soubesse pouco a respeito de Cristo, tivesse pouca compreensão dos assuntos doutrinários e não entendesse a sua necessidade, alguma coisa o permitiu

ver que somente no trono de misericórdia você poderia encontrar refúgio.

Antes de tornar-se um crente, seu leito testemunhou muitas lágrimas, quando seu coração magoado se derramava diante de Deus, em palavras assim: “Ó Deus, eu quero alguma coisa. Não sei o que eu desejo, mas sinto uma opressão de espírito. Minha mente está sobrecarregada e percebo que somente o Senhor pode me dar alívio. Reconheço que sou um pecador. Oh! perdoa-me! Não entendo bem o plano de salvação, mas eu sei que desejo ser salvo. Eu me levanto e vou ter com meu Pai. Meu coração anela tornar-Te o meu refúgio”. Digo que esta é uma das primeiras indicações de que essa pessoa é um dos eleitos de Deus. É verdade que, assim como aconteceu com o povo de Israel no Egito, Deus é o refúgio de seu povo, mesmo quando eles estão sob opressão.

Quando termina o cativeiro, Deus se torna o lugar para que seu povo se refugie de seus pecados. Os israelitas foram tirados do Egito. Eles ficaram livres. Os israelitas não sabiam para onde estavam marchando, mas as algemas haviam sido despedaçadas. Eles foram emancipados e não precisavam mais chamar ninguém de “Senhor”. Porém, vejam, Faraó ficou irado e os perseguiu. Com

seus cavalos e seus carros, ele saiu apressadamente atrás dos israelitas. O inimigo disse: “Perseguirei, alcançarei, repartirei os despojos; a minha alma se fartará deles” (Êxodo 15.9).

De maneira semelhante, existem épocas da vida espiritual em que o pecado se esforça para reconquistar o pecador recém-libertado de suas garras. Assim como exércitos preparados para a batalha, todo o passado de iniqüidades do pecador corre atrás dele e o vence em um lugar onde seu caminho está cercado. O pobre fugitivo deseja escapar, mas não pode. Então, o que ele deve fazer? Lembre-se que, naquelas circunstâncias, Moisés clamou ao Senhor. Quando nada poderia oferecer refúgio aos pobres fugitivos, quando o mar Vermelho rugia diante deles e as montanhas os encerravam, em ambos os lados, e um inimigo furioso os perseguia, havia um caminho que não estava obstruído. Era o caminho do trono do Rei celestial, o caminho do Deus dos israelitas. Por isso, eles começaram imediatamente a andar por esse caminho, erguendo seus corações em humilde oração a Deus, crendo que Ele os livraria. Você conhece a história: como o

Charles Haddon Spurgeon